December 10, 2010

You know what?

To many.

You know what?
I think we were actually made for each other.
Just not to be together.


And I hope it doesn't change.

December 08, 2010

You shouldn't listen to me

A morte não era uma pergunta para ele. Era uma resposta. Mesmo sem saber quais as palavras que a compunham. Era a resposta que ele procurara a vida toda. Morte. Estar em um lugar melhor. Estar lá em cima cuidando de nós. Ficar em paz. Todas mentiras que nós contamos a nós mesmos. Não era um escape, era a volta para casa. Morrer a cada instante. Todos nós fazemos, mas poucos somos cientes. Mas ele; ele podia senti-lo. Em cada enxaqueca, em cada náusea no meio da noite. Cada vez que o sangue molhava seu cigarro. "Estou perto. Finalmente". Ele pensava. Não pensava ser fraco demais para as provas que a vida lhe punha. Só não eram indicadas para ele. Imagine perguntar sobre existencialismo para uma criança de 8 meses. Ela não sofreu o suficiente para conseguir pensar numa resposta. Mas ele; ele sofrera, e sentia a cada minuto a vida fugir do seu corpo como uma ilusão. Entre hospitais, médicos indiferentes e enfermeiras preocupadas demais; sua vida escorria por entre os dedos de quem poderia salvá-lo mas não sabe como, e os de quem simplesmente queria salvar todo mundo. E agora as nuvens cinzas não deixam o sol nascer belo. O vento, cansado, não acalma seu corpo. Só a luz, moribunda, consola sua vida que se apaga. E, como um cigarro na calçada, espera sua vida se extinguir, sem ser notada.

November 28, 2010

500 days (VII)

Sem esforço, ignorou-a; mas percebeu que seu acompanhante olhava para ele. Dirigiu-se até uma mesa vazia que parecia aguardâ-lo. Sentou-se e, tirando uma caneta do bolso, fez uma pausa para observar o mar e a lua, antes de começar a rabiscar silenciosamente em um guardanapo. Vozes e risos flutuavam ao seu redor. Concentrado, não percebia o tempo passar. Levantou os olhos. Uma gaivota voava em torno à lua. "A lua gira no céu e canta", escreveu. Longe, a usual fileira de navios assemelhava uma cidade perdida no meio do mar. Súbitamente, um copo foi colocado à sua frente.

- Seu whisky, senhor - anunciou uma voz feminina, inconfundível.
- Pode levar de volta. Não pedi nada - respondeu ele.
Levantou a vista. Ela sorria. Ele sorriu também, cínicamente, e disse.
- Júlia, desculpa. Pensei que fosse outra pessoa.
- Você está mentindo - ela riu.
Ele parou um instante para observá-la. Conservava aquele belo ar de abandono, como um prêmio que ninguém reclamara.
- Você ainda sabe quando eu estou blefando. Impressionante. Vais sentar comigo?
- Só se você quiser a minha companhia.
- Bom, nesse caso... - disse ele, encarando-a impassível.
Ela pareceu hesitar por um instante, mas, finalmente, sorriu e sentou-se.
- O que houve com teu acompanhante? - perguntou ele, sem olhar em direção à mesa que aquele ocupara.
- Ah, bom - ela desviou o olhar-. Ele teve que ir embora.
- Então é a ele que devo a tua companhia essa noite. Que considerado - ela sorriu. Ele virou-se e chamou um garçom-. Brindemos por isso.
Um homem jovem de cabelo engominado e uniforme impecável se apresentou.
- Traga uma garrafa de espumante.
- Sim senhor, alguma preferência?
- A melhor da casa.
- E para a senhorita? - perguntou, inclinándo-se ligeiramente para a frente, com um sorriso exagerado que parecia ter sido ensaiado no espelho.
- Nada, obrigado - respondeu Júlia gentilmente.
- É só isso, Don Juan, obrigado.
O garçom pareceu perplexo.
- Meu nome é José.
Frank e Julia sorriram, divertidos.
- Bom saber - disse Frank.
A expressão confusa persistia no rosto do garçom enquanto este se dirigia ao bar.
- Você não existe - disse Julia, ainda sorrindo.
Ela viu o guardanapo na mesa, curiosa. Com um movimento grácil, pegou-o e começou a ler. Uma risada diferente chamou sua atenção. Na beira do mar, uma mulher girava sobre si com os braços abertos, enquanto um homem a observava, sentado na areia, a uns metros de distância.
- Déjà vù... - disse ele.
Ela não o ouvira.
- "A lua gira no céu e canta", gostei dessa frase.
- É, eu também não gostei de nenhuma das outras - disse ele, com um sorriso apertado.
Ela inclinou a cabeça para um lado, com expressão impaciente.
- Não é isso que eu quis dizer... "they haunt and taunt as they dance, still / as they crawl and haul their sorrows through / it never ends, it never ends"
Ele bebeu seu whisky de um só gole.
- Mas é a verdade. A minha inspiração nunca voltou realmente depois de ti.
O olhar dela pareceu perder um pouco do seu brilho. Forçou um sorriso fingido e disse
- Isso foi há tanto tempo... Eu não sou esse monstro que estás pensando.
Ele riu.
- Tu nunca foste nada do que eu pensei que fosses.
Ela baixou os olhos. Ele ainda sorria. O garçom a resgatou.
- Seu pedido - disse, desconfiado.
Depositou as taças na mesa, serviu ambos e foi embora.
- Vamos brindar - disse Frank-. Às noites interessantes de encontros inesperados.
- Aos brindes falsos - disse ela, aparentemente recuperada e indiferente.
- Aos sonhos frustrados.
- Às manhãs frias e sem poesia.
- Às noites quentes e sem alegrias.
- Aos beijos sem amor.
- Às mentiras sem dor.
- Às nossas vidas sem nós - ela sorriu.
- Saúde.
Ambos beberam, com os olhos fixos, um no outro, enquanto bebiam. Cada um tentava descifrar o outro. Adivinhar o outro.
- Adoro espumante - disse ela.
- Sempre preferi whiskey.
- Mas hoje pediste espumante. Por quê?
- Por que eu sei que adoras espumante. E espumante é mais adecuado para comemorações.
- Que estamos comemorando?
- Tua presença, é lógico. E... - olhou para o relógio - sim, ainda é meu aniversário, então...
- Eu tenho que ir.
Ele a observou, familiarmente surpreso.
- Boa noite.
- Até a próxima.
Observou-a abandonando o lugar, andando com cadência por entre as mesas. Ao chegar a rua, percebeu que o acompanhante voltara. Eles começaram a discutir.

October 21, 2010

Why and how

"-tu és muito observador, tenho medo de gente muito observadora...existem duas pessoas que parecem me conhecer até mais do que eu mesma, tu és uma delas..."

"- foi contigo que aprendi a por cerveja no copo
- e a bater a cinza do cigarro
"

"- a gnt se conheceu dia 2 de junho, não foi?
- faz tao pouco tempo? pra mim parece uma eternidade"

"-tomei banho de mar, só lembrei de ti..."

"-fui la no prédio. lembrei de ti.."

"-acha a legenda de Sex and the City pra mim?
-qual é a palavra mágica?
-por favorzinho?!
"

"ela mostrou-lhe uma foto sua
- gamei. quem é?
- hasuhasuhas. vovó
"

"- Te achei bem frio no venetto, what happened?
- é? eu pensei o mesmo de ti
- Eu fui la te dar um abraço e n senti sinceridade :/
- eu pensei a mesma coisa
"

"-Um dia eu sento contigo e conto tudo"

"- ...dependência baixa
- meu orgulho =*
"

"malditas tequileiras. aquelas mulheres que sacodem nossa cabeça"

"- não sei de onde tiraste tal história.
- foi meio q um desabafo
- interessantíssimo
"

"- ele é psicopata, esse sim é. asuhush
- eu não sou mais?
- nao. essas ultimas semanas tu provaste que eu tava errada
"

"- ei, descreve meu beijo?
- haha, pra quê?
- nao sei, curiosidade
- hmmm. mas não to lembrando, vou precisar que refresque a minha memória
"

"no nick dela: {não}
- sim
- sim what? ah sim. entendi. sim pra ti, sim
"

"- Ficou muito boa tua síntese. meu orgulho"

"- eu não gosto de camarão... por isso q eu falo q sou alérgico. mas não fala p ngm q é mentira =]
- tudo bem honey.  it's our little secret
"

"- abririas um restaurant?
- yep. pensas em te unir a mim?
"

"- vou tomar banho
- q dia vc vai se dignar a me dar um abraço? aquele último não foi mto bom não
- vou pensar no teu caso :P
- durante o banho?
"

"- nhami. sorvete
- mas arroz engorda né
"

"uma das vezes em que ele comprou flores para ela:
- eu te vi hoje =)
- where?
- no planta, conversando com o skinhead
"

"- quer um pedaço de neve?
- quero. você traz pra mim?
"

"- ei, tres meses que a gente se conhece.
- é... (F) feliz aniversário de 3 meses (F)
"

"- tá curtindo?
- Muito, ja quero morar no frio, let's go?
"

"- Take care. You're gonna fall in love
- me? why do you think so?
- German girl
"

"- fiquei te esperando aqui p te dar as boas vindas
- tu sempre estás aqui pra mim. brigada
"

"- eu pensei que era pensando em alguem
- em quem?
- alguma outra musa...
- não, vc é a única
"

"- gosto mto de ti
- Por que a cara triste? Gostar de mim é ruim?
- às vezes
"

"- mas resolvi parar e tentar conviver. tu és uma das 3 pessoas que sabem disso."

"- não pára, aprende a controlar
- vou tentar. me ensina?
"

"- vou dormir. me deixas ir?"

"- como estão os planos de se mudar pro sul?
- vontade no corpo todo. tu irias comigo escondido
"

"- dá p criar um cachorrinho?
- da, um pequeno. que fique deitado entre a gente às vezes
"

 "- desculpa. mesmo. do fundo do coraçao
- ...
"
"- ontem, de ontem pra antes. as coisas mudam."

"- e tu falaste o que sobre a situaçao?
- que já falei com a tua mãe. mas ela não quer te vender de jeito nenhum
"

"- agora o que eu nao preciso é de alguem pra ficar me julgando uma altura dessas da vida.
- achas que eu te julgo?
"

"- nunca...
- nunca? nunca oq?
- nunca me fez falsas promessas
"

"- que vais fazer?
- vou dar uma volta, nessa noite perfeita que promete
- HAHAHAHAHAHA. bobo. TO RINDO. ALTAO
"

"- não bebe hoje (:
- pq não?
- Qual a necessidade?
"

"- ei
- oi
- ei. ei. (L) :*
"

"- sonhei contigo. te via passar na rua
- eu também sonhei contigo...
- sério? oq?
- sonhei que tu me sequestravas
"

"- ...me chamando pra fazer fumaça. eu disse que tinha prometido pra ti que nao ia fumar"

"- de especial pra quem?
- alguns homens...
- hmmm, ela tem bom papo tb
- a intenção é me fazer ciume?
"

"- Eu pensei em ir na tua casa falar ctg, tu ias me expulsar?
- falar oq, meu? não há nada p falar
- Eu queria que tu soubesses que eu nao sou esse monstro que estas pensando. Queria que tu olhasses nos meus olhos e visses isso.
"

"- Ta certo... Mas to aqui sempre, idiota e imperfeita, mas sempre."

"- se eu nao tivesse que trabalhar hoje eu ia ai
- hmmm. não tem pressa, suponho
- Pressa eu tenho. Me falta tempo
"

"- eu quis dizer q não muda muita coisa de um dia pro outro
- ou muda... vai saber
"

"- Pra quem tem pressa...
- Eu nao quero conversar contigo na frente de todo mundo."

"- ei, se a gente for beber no meu antigo ap amanha tu vais?"

"- eu quero viajar
- eu acho q vou. mas ainda não é confirmado.
- pra onde?
- rio
- fazer?
- trabalhar, morar, e tudo
- wow
"

"- YES
- yes uat?
- yes to your no

- ..."

October 10, 2010

500 days (VI)

Demorou alguns segundos antes de aceitar que aquela mulher realmente dizia ser um anjo. Com um sorriso que mostrava o quão absurdo era isso, virou as costas e começou a andar.
- Um anjo... Cada coisa -pensou-.
Acendeu um cigarro e continuou andando. Um pensamento atiçou sua curiosidade.
- Espera ai, como você sabe quem eu sou? - disse em voz alta, com um tom ligeira e propositalmente amedrontador, enquanto se voltava. Ela sumira. Aguçou a vista e procurou, em vão, nas proximidades. A rua estava deserta. Confuso, retomou seu caminho, pensativo.
- Calmantes e whisky não fazem um bom par - anotou mentalmente.
Andou mais alguns quarteirões, preocupado com a idéia de não poder confiar na sua própria mente. Era o único que lhe restava. O forte miado de um gato o tirou dos seus pensamentos. No alto de algumas caixas empilhadas na calçada, um gato preto o observava. Ele sorriu. Esse tipo de coincidências sempre o divertira. Se dirigiu, então, até o táxi que aguardava na esquina. O motorista, do lado de fora, fumava um cigarro. Ele estava ouvindo blues; Robert Johnson.
- Primeiro um gato negro e agora um guitarrista que vendeu a alma ao diabo! Essa noite promete! - declarou sorridente.
O motorista respondeu com um sorriso, e perguntou:
- Para onde?
- Calma, termina teu cigarro e deixa terminar o meu.
- Pode fumar no carro, senhor.
- Excelente. Essa noite fica cada vez melhor.
Ambos entraram no carro.
- Para onde? - inquiriu mais uma vez o motorista.
- Vamos dar umas voltas na praia. Depois eu decido.
O motorista olhou para Frank como se este estivesse maluco. Porém, aceitou.

"...Early one morning the blues came falling down
All locked up in jail, I'm prison bound..."


Abandonaram a rua deserta. Noctâmbulos vagabundavam pelas ruas escuras, alguns solitários, outros mal acompanhados. Em uma esquina, um sujeito de aparência estranha vendia remédios antimonotonia.

"...Thinking of my baby and my happy home..."

Na próxima esquina, do lado de uma viatura estacionada, um policial conversava alegremente com uma prostituta.
- Olha só isso - disse Frank ao motorista -. Será que policial tem desconto?
Ele respondeu gargalhando:
- Cem por cento de desconto. É a esposa dele.
- Você o conhece? - perguntou Frank cautelosamente.
- Não ele. Mas conheço ela.
Ambos riram.
- Ele policial. Ela puta... Aposto como o filho deles vai ser político.
Mais risadas.
- Não me surpreenderia.
Deixaram o casal para trás, e, alguns metros à frente, pararam em um sinal. Frank olhava, absorto, a luz vermelha.
- Você acredita em anjos? - perguntou ao motorista, que olhou para ele com surpresa.
Após poucos segundos, ele respondeu.
- Quem acredita em anjos acredita em deus.
- Isso é um não?
- Exatamente - respondeu o motorista, fazendo uma curva.
Frank observou o casal desaparecendo no retrovisor. Um brilho prateado chamou sua atenção.
- É pouco comum um atéu ter um crucifixo no seu carro.
O motorista passou a marcha sem olhar para Frank ou o crucifixo.
- É parte de uma coleção.
- Coleção de crucifixos? Claro, todos os atéus fazem isso - retrucou Frank, com um sorriso sarcástico.
- Coleção de coisas bizarras. Ganhei esse crucifixo em uma partida de poker. O homem que perdeu disse que o crucifixo o protegia do demônio.
- Não há nada tão bizarro assim nessa história - observou Frank.
Dessa vez, o motorista o olhou nos olhos por um instante. Ele sorria. Esperava essa reação.
- Esse homem morreu uma hora depois. A causa da morte? Desconhecida.
- ... isso é bizzarro - Frank levantou as sobrancelhas, surpreso -.
O motorista riu. Apontando para a esquerda, disse:
- Prédio azul, quinto andar. Foi lá que "o demônio" matou aquele homem.
O prédio aparecia avelhentado, mas ainda mantinha o ar nobre que tivera em tempos melhores. Frank sentia um grande apelo por esse tipo de decadência. Em uma janela do sexto andar, uma velha mulher, de aparência perturbadora, fumava; parecia uma ave de rapina à espreita de novas vitimas. Como lendo sua mente, o motorista continuou:
- A velha da janela já enterrou 4 maridos e 5 filhos. Fica o dia inteiro fumando na janela. As crianças do bairro dizem que ela não sai de lá nem para comer. Ninguém sabe ao certo quantos anos ela tem, pois não fala com ninguém. No porta-luvas tem uma foto dela e o quarto marido, morto, sentado na cama do lado dela.
- Que personagem interessante - pensou Frank -.Como você conseguiu a foto então, se ela não fala com ninguém? - respondeu.
- Você é policial? - o tom da pergunta era defensivo.
- Quê mais você tem no carro? - respondeu Frank, sem se importar.
O motorista o observou, desconfiado, por alguns instantes.
- Uma pedra do túmulo de um cantor - respondeu finalmente -. Mas ela não está assombrada como o vendedor garantiu. Só a conservo porque paguei caro por ela. E mais nada.
- Não é uma coleção muito grande.
- Não é um carro muito grande. O resto da coleção fica em casa.
- Que classe de coisas?
- Uma cruz de madeira que achei flutuando na beira-mar. Um côco que matou um infeliz que não acreditava na gravidade. Coisas assim.
Frank sorria. Gostava desse cara. Alguns minutos depois, chegaram até a praia. Ele decidiu ficar no bar de sempre.
Ao chegar, desceu do táxi, pagou o motorista e despediu-se. Acendeu um cigarro e observou as estrelas. Ao terminar, entrou no bar e se dirigiu até uma mesa com vista ao mar. Quando tinha andado dois passos em direção à mesa, percebeu um perfume no ar. Buscou ao seu redor, e então a viu. Ela não estava só.

September 16, 2010

500 days (V)

Acordou num quarto pequeno de paredes brancas. Bocejando, olhou ao redor. Um retrato e um cinzeiro na escrivaninha. Um violão no canto. Ele estava deitado numa cama de lençóis brancos. O pequeno beagle pulou pra cima dele, balançando o rabo alegremente.
- Lilo, desce! - disse ele. Abraçou o cachorro e o colocou de volta no chão. Ele saiu correndo do quarto, latindo.
Ao seu lado, ela despertou. Ele olhou pra ela, parecia dez anos mais jovem.
- Oi amor...
- Oi. Desculpa, não queria ter te acordado.
Ela aceitou a desculpa com um beijo.
- Está tudo do jeito que a gente planejou... - disse ele, fitando-a nos olhos, absorto.
- Não. Ainda não encontramos a vinícola. E você ainda não toca em barzinhos.
- Mas já me inspiras uma música por dia - respondeu ele sorrindo.
Ela riu. Aos ouvidos dele, seu riso era um festejo. Ele a amava. Anunciou:
- Vou fazer café da manhã. Fica aqui, prepararei tudo e o tomaremos na cama, juntos.
- Não vá. Fica comigo. - Era quase um suspiro.
- Como vou dizer não agora?
Ela fechou os olhos, sorrindo. Na janela, o sol anunciava um dia esplêndido.
- Que faremos hoje? Estava pensando em levarmos o Lilo para o parque, dar uma volta na cidade e depois tomar um vinho na varanda, olhando o pôr do sol...
Ela abriu os olhos.
- Podia ser um pouco mais criativo. Nós fizemos isso ontem.
Ele abriu os olhos, desconcertado. O esforço para lembrar foi em vão.
- É, mas continua sendo um bom plano - disfarçou-.
- Você não lembra porque nunca aconteceu. Ontem nunca aconteceu. Isto é um sonho, você está sonhando.
- Eu sei. - Uma súbita tristeza o invadiu, e transpareceu nessas duas palavras.
Ela riu cruelmente, divertida.
- É que você realmente pensou que isto era verdade? Eu morando contigo? Acordando do teu lado? Todo dia? Nunca ouvi coisa mais idiota na minha vida - disse, e riu mais uma vez; de uma maneira tão encantadora que só seria ruim acompanhada das palavras com que fora acompanhada.
- Cala a boca - disse ele, saindo da cama. Foi até a porta, onde Lilo o esperava, grunhindo, ameaçador.
- Até o cachorro te odeia! Olha só que beleza - ela rolava na cama, rindo. Parecia extasiada com o dano que causava.
Ele olhou ao redor, tentando fugir. Na janela, o vidro estava quebrado. Do lado de fora, uma noite escura. O vento que entrava era frio, antinatural. Numa mesa no canto, descobriu uma arma. Apontou-a para o cachorro e atirou. Ela continuava rindo.
- Julia, cala a boca. Por favor... - a arma agora apontava para ela.
- Quem você quer enganar? Tu não tens coragem para isso. - As palavras saiam da sua boca como balas. - Você não é nada! Nada! Nada!
Ele colocou a arma na própria cabeça.
Acordou sobressaltado. Os gritos dela ecoavam na sua cabeça. Engoliu, tentando se livrar do nó na sua garganta. Seu celular tocava no chão. Ele atendeu.
- Parabéns, mané! - a voz do outro lado era agradávelmente familiar.
- Obrigado. Mas não foi ontem? Que horas são?
- As 10, tu ainda tens duas horas para curtir. Tu estavas dormindo?
- Estava. Obrigado por me acordar.
- De novo pesadelos? - perguntou a voz do outro lado gravemente.
- Só um. Sempre o mesmo. E está ficando pior.
- Estou começando a ficar preocupado.
- Não fique.
- Eu sei o que está acontecendo, tentas sempre reviver esse sonho mas não consegues mais controlâ-lo. Talvez esteja na hora de parar.
- Talvez.
- A vida é melhor que os sonhos, Frank. Não esqueça disso. Procura ocupar teu tempo, conhecer pessoas, viajar. Poderias me visitar, sempre sonhaste com morar na Europa. Poderias voltar a trabalhar.
- Temos gente que trabalha por nós, tu sabes disso - retrucou, rindo-. Vou sair agora. A gente se fala depois.
- Você vai estar bem?
- Vou. Relaxa.
- Está bem, divirta-se. E manda notícias. Abraço.
- Marcelo - hesitou-.
- Fala.
- Obrigado por ligar.
Desligou o celular e o deixou cair no chão mais uma vez. Foi até o banheiro e se examinou em frente ao espelho. Olhos vermelhos, olheiras profundas. Era a própria imagem do desespero. Tomou um calmante e entrou no chuveiro.

Eram quase as onze quando deixou o apartamento. Decidiu ir pela escada. Ao chegar na rua, uma mulher falou com ele.
- Olá. Eu estava esperando por você - ela sorria levemente-.
Ele a analisou: cabelos escuros, pele clara, traços delicados e curvas suaves. Parecia ter sido desenhada por um artista muito timido. Colocou o seu melhor sorriso no rosto e respondeu
- Pois então sou um cara de sorte - deu 3 passos em direção a ela, e estendeu a mão-. Prazer, meu nome é-
- Eu sei quem você é, Frank. Como disse, eu estava esperando por você.
Ele fitou-a nos olhos; meio divertido, meio desconcertado. O esforço para lembrar foi em vão.
- Olha, desculpa, eu tive um dia dificil. Mas aposto que qualquer outro dia eu lembraria de ti. Mas já que estavas me esperando e eu estou aqui; por que não vens comigo? Vou dar uma volta e talvez tomar uns drinks. E depois... quem sabe?
- Desculpa, Frank. Não estou aqui para isso - ela sorria de uma maneira estranha. Era um sorriso leve, de mãe-.
- Posso saber o porquê da sua visita então? - perguntou, dando um passo para trás. Essa mulher parecia estar louca.
- Estou aqui para te salvar.
- Me salvar? Salve-me do tédio, então, e volte para o seu hospício. Quem é você, afinal?
- Eu sou um anjo.

September 13, 2010

500 days (IV)

A porta do elevador se abriu enquanto uma voz feminina anunciava o sétimo andar.
- Está cheio - ele anunciou, com o cigarro ainda nos lábios, a uma velha mulher, enquanto apertava irritado o botão que fecharia as portas novamente.
Lembrou da cena que acabara de acontecer alguns andares acima. Começou a rir. Atravessou o lobby ignorando o sujeito baixinho que lhe pedia apagasse o cigarro. Ao chegar na calçada, olhou ao redor. O sol escaldante o cegava.

 ...

Fechou a porta do apartamento tras de si e colocou as chaves na mesinha próxima à porta. Pôs um disco para tocar e serviu-se uma dose de whiskey. Sentou no sofá e deixou a bebida lhe queimar a garganta. Olhou para o retrato na mesa de centro. A moldura de prata estava amassada em vários pontos, e o vidro, quebrado. Deixou o copo na mesa e pegou o retrato. Relembrou o encontro da tarde anterior e todo o peso do tempo que caiu sobre os traços da fotografia o atormentava. Cedo o suficiente, lembrou o que sucedeu àquele encontro. O bar, a praia, o hotel. Sorriu. Mais um gole de whiskey. Nostálgico, acariciou o retrato e deu um grito quando o vidro cortou seus dedos. Se levantou e foi até a cozinha, xingando. Jogou o retrato no lixo, mais uma vez. Voltou à sala e olhou ao redor. Um ar de decadência governava o lugar. Vidros rotos, copos vazios. Cinzeiros cheios, buracos queimados no sofá. E Jane Bunnett chorando Lágrimas Negras no fundo. Um calendário, meio escondido embaixo de um banco, chamou sua atenção. Pegou-o e descobriu que dia era.
- Feliz aniversário - pensou -, um ano mais perto da morte.
Essa idéia lhe trouxe conforto. Tudo fica mais decadente após algum tempo. Lembrou da frase que leu em algum lugar: "Quando você chega em uma certa idade, tudo fica um pouco mais decadente, existe um preço psíquico. Não há nada mais sórdido do que acordar sem saber o nome da pessoa ao seu lado". Ele concordava. Com isso e, também, com dormir com uma pessoa sem ter realmente um motivo para isso. Cuidadosamente, colocou o calendário de volta no seu lugar embaixo do banco e dirigiu-se ao quarto. Tirou a roupa, espalhando-a cuidadosamente pelo chão. Foi até a janela aberta, enquanto João Gilberto cantava
- "Estate il sole che ogni giorno ci scaldava
Che splendidi tramonti dipingeva
Adesso brucia solo con furore
".
Ele soltou um grito repentino e respirou, mais calmo. Fechou os vidros, cobertos de tinta negra, e foi até a cozinha. Tirou o retrato da lixeira, colocando-o de volta na mesa em frente ao sofá. Voltou ao quarto e deitou na cama, olhando para o teto, escuro.
- Feliz aniversário - disse em voz alta, mais ninguém iria falar isso nesse dia.
Fechou os olhos e durmiu.

September 05, 2010

500 days (III)

A garrafa de whiskey repousava na areia, incrívelmente branca agora. No céu, incrívelmente escuro, as estrelas, incrívelmente brilhantes, piscavam impassíveis. A brisa parecia explorar cada centimetro do seu corpo, desejava ficar assim para sempre. Observou-a, alguns metros à sua frente, girando sobre si com braços abertos, olhos fechados e um sorriso de satisfação tão perfeito que parecia ter nascido junto com ela. Ao longe, ouviu um tiro e ela vibrou em luzes. Como quem acorda de um sonho bom para um sonho melhor, ela abriu os olhos e caminhou na direção dele, cantarolando uma melodia que acabara de inventar.
- "E eles nunca vão saber... o lugar em que vivemos todos querem conhecer".
- Que lugar é esse?
Ela deitou na areia, sorrindo de novo, e respondeu.
- Estamos aqui agora.
Ele compreendeu. Havia perfeição em tudo que ele sentia nesse momento. Inclinando-se sobre ela, achou que pudesse escutar o seu coração batendo, calmo e frenético ao mesmo tempo. Beijou-a e ela pareceu voltar à realidade, compreendendo. Quando separou seus lábios dos dela, um leve gemido escapou do seu peito que subia e descia, agitado, enquanto ela franzia o cenho, ainda com olhos fechados.

...

A grande janela do quarto mostrava uma vista abrumadora da ponta; à distância, um velero cruzava as águas lentamente. Do outro lado, Michael Franti começara assobiar; ele olhou para a cama vazia, procurando com os olhos. Ela surgiu a través da porta do banheiro, nua.
- Adoro essa música.
O corpo nú dela era o único que conservava a perfeição que experimentara há umas horas atrás.
- Eu sei.
Ela ficou na varanda, junto dele, e acendeu um cigarro. Ele assistia às ondas golpear as pedras da praia, dezenas de metros embaixo. Lembrou do tiro que ouvira na noite anterior. Alguém havia morrido perto dele? Decidiu não fazer essa pergunta.
- Quanto tempo vais ficar na cidade?
- Queres saber quando eu vou embora? - um sorriso triste, ou talvez sarcástico, adornava seu rosto.
- Eu não disse isso.
- Pouco tempo, talvez não nos vejamos de novo.
- Bobagem, sempre precisarás de alguém para pagar a conta.
Ela soltou uma gargalhada. A inspiração daquela tristeza, ou talvez sarcasmo, parecia ter desaparecido; isso o aliviou. Ele acrescentou
- Nunca mais duvidarei quando tu falares em surpresas.
Ela riu de novo, ligeiramente ruborizada. Fixou seus olhos nos dele por alguns instantes e, incapaz de achar uma resposta apropriada, olhou em direção ao mar e deu uma tragada do seu cigarro.
- Vou tomar um banho - disse ela, entregando-lhe o cigarro.
Ele deu uma tragada, com a mente em branco, enquanto ela se afastava. Lançou o cigarro para o vazio.
- Queres companhia?
Ela parou no vão da porta, e o olhou nos olhos, sem se virar totalmente, com os dedos tocando suavemente ambos os lados. Seus olhos eram tão intensos que ele não conseguiu articular mais uma palavra. Ela atravessou o vão da porta e a fechou tras de si.
- Oh deus - pensou ele. Dirigiu-se à mesa e encontrou, em meio a garrafas vazias, uma que ainda continha um pouco de champagne. Se serviu uma dose e armou-se de coragem. Colocou seu cd favorito de smooth jazz, aumentou o volume, e chegou até a porta do banheiro. Com um sorriso nos lábios, girou a maçaneta.
A porta estava trancada.

September 01, 2010

500 days (II)

Um beijo rápido marcou o fim do encontro. Sem se importar como teria se importado no passado; acendeu um cigarro, seguindo-a com a vista enquanto ela se dirigia ao carro. Inalou mais uma vez o fumo que invadiu, pacificador, os seus pulmões. Um carro passou na sua frente; ela beijou as pontas dos dedos e acenou, sorrindo. Ela mudara o cabelo, mas ele não percebera. Também não percebera que era a primeira vez que ele a via de unhas compridas, que usava o mesmo perfume que usou no dia em que se conheceram, ou que pequenas rugas começaram a aparecer no seu rosto. Deixara passar também o peso nos lábios que faziam parecer forçados quase todos os seus sorrisos. Não percebera, enfim, esse ar de insatisfação que governava os gestos dela. Assistindo impassível à sua própria falta de observação, inventou uma desculpa:
- Foda-se.
Começou a andar, com o cigarro acesso e à procura de um táxi, enquanto buzinas competiam para chamar a sua atenção. Absorto em seus pensamentos, ele ignorava tudo ao seu redor. Ignorava os próprios passos, pronunciando vários 'perdão' apenas audíveis após esbarrar em algum desconhecido. Ignorava as luzes, de postes e anúncios, que cegavam seus olhos e o impediam de ver as estrelas, tímidas no começo da noite. Ignorava até o próprio vento que roubava descaradamente tragadas do seu cigarro. Seu celular tocou enquanto ele entrava no táxi.
- Pra onde?
- Só dirija até meu dinheiro acabar.
O taxista sorriu, desconfiado.
- Alô?
- Oi, acabei de chegar em São Luis. Vamos nos ver?
- Drinks no lugar de sempre?
- Já estou aqui.
Desligou com um estalo no pulso e um sorriso nos lábios, mas o lugar de sempre fugia à sua memória. Depois de alguns minutos perdidos, ele, no taxi, chegou ao local marcado.

Uma moça o esperava; era uma velha amiga, mas ele não pensou nisso. Havia-se acostumado com outro tipo de lembranças: os cabelos loiros, os olhos cinzas cercados de um preto abrumador, o nariz, artificial, os lábios alegres e, especialmente, aquelas curvas que anunciavam um grande estado de espírito, com um profundo aprécio ao mundo das noites sem dia, que a deixava sempre disposta ao sexo sem amor. No céu, a lua era grande e brilhava, mas estava partida pela metade e amarela; parecia doente.

- Nunca tinha percebido como as coisas mais belas podem parecer tão tristes - as palavras escaparam da sua boca, e temeu estar sendo inoportuno. Ela o abraçou, rindo, com um abraço que lhe esquentou o sangue.
- Não sei se ficar feliz por me achares tão bela ou preocupar-me por me achares tão triste - a brisa sacudia seu cabelo enquanto ela o olhava.
- Estás radiante, você toda, radiante. Cada detalhe da tua aparência perde importância frente ao conjunto todo e o efeito que ocasionam - estava sendo sincero.
- Então fico feliz - respondeu, com um sorriso brilhante -. Vem - o segurou pelo braço, puxando-o -, tu demoraste muito, eu comecei a beber e agora quero continuar. Preciso de alguém para pagar a conta.
Ele soltou uma gargalhada.
- Suponho que algumas coisas nunca mudarão.
- Para de reclamar e senta comigo.
Sentou pesadamente na cadeira, o alívio que sentira com a gargalhada tinha passado.
- Como estão as coisas? A ilha ainda te trata bem?
- Suponho que sim, os negócios andam bem, alguns lugares legais tem aparecido...
- E a namorada?
- A namorada... - o final da frase veio acompanhada de uma risadinha sarcástica - Namoro implica amor. O que a gente tem é... só conveniência - observou o sorriso dela se dissolver enquanto seu olhar se carregava de algo triste, que ele odiava: compaixão.
- Devias terminar com ela então, abandonar tudo e viajar o mundo inteiro; conhecerias alguém e te apaixonarias, e quem sabe algum dia conseguirias chamá-la de namorada.
- Não acredito mais nisso - replicou, rindo-, mas a idéia de viajar o mundo conhecendo mulheres lindas realmente me atrai.
- Eu não quis dizer isso, quis dizer que deverias procurar o amor.
- Quando eu tinha 17 anos, uma garota que eu amava me perguntou se alguma vez alguém, cuando eu tivesse que ir embora, havia me abraçado tão forte como se estivesse me segurando, e pedido para eu ficar com ela. Hoje, muitos anos e mulheres depois, a resposta continua a mesma.
- Eu lembro que tu gostavas daquela música... daquele filme.
- Tua memória me surpreende hoje - aproveitou para fugir do assunto que sempre lhe ganhava olhares de compaixão.
- A noite ainda tem muitas surpresas pela frente - respondeu ela, de maneira provocadora.
- Um brinde a isso.
Beberam com aquela intimidade que só o tempo dá; comentando o passado e o futuro, mas sempre fugindo do presente.
- Que estavas fazendo quando me ligaste?
- Já esqueceu? Eu disse que estava bebendo.
- Ah, sim, e esperando alguém para pagar a conta; agora lembrei - ela riu.
- E tu, estavas com alguma mulher? Interrompi a diversão?
- Eu estava saindo de um café, de um encontro com uma mulher; mas você não interrompeu nada, muito menos diversão.
- Coitada! - festejou, rindo - Se ela é tão feia, então porque estavas em um café com ela?
- Ela não é feia, é das mais lindas que eu conheço; e estava em um café com ela porque ela queria conversar sobre o passado.
- Então é das antigas? Uma dessas muitas que mencionaste? - ele entendeu a provocação. Ela nunca achou que ele fosse um conquistador eficaz.
- Não. Na verdade, ela poderia ter sido uma das poucas. Mas chega, já respondi muitas perguntas essa noite e ainda não vi nenhuma das surpresas que tu mencionaste.
- Bom... - disse ela, olhando ao redor; claramente, uma surpresa estava por vir - Eu tenho um presente para ti, para lembrar dos velhos tempos - ela mostrou a lingua.
- Garçom! Uma garrafa de whisky e a conta.

August 26, 2010

Um beijo

Desculpa se eu estou sendo bobo; mas eu realmente preciso contar isto pra alguém. Eu- eu a beijei ontem à noite. E eu me sinto bobo porque não consigo parar de sorrir. Mas é como... como se eu fosse feliz. Vou contar como aconteceu. Foi... repentino, sabe? Como quando você está tendo um mal dia e do nada você vê a lua no meio do céu. Foi parecido, ela estava falando e eu a beijei. Só a beijei, simples assim. Mas cara, realmente não estava pronto para isso. Quando seus lábios tocaram os meus pela primeira vez não foi nem um beijo de verdade, poderia simplesmente ter sido o melhor acidente que já acontecera comigo... E então a vi sorrindo, com os olhos quase fechados como se estivesse escutando uma bela canção, ou como se estivesse pensando exatamente o mesmo que eu. E eu amei esse sorriso e, por um momento que durou para sempre, eu lembrei o toque desses lábios, a sua cor e como tremeram, surpreendidos, quando encontraram os meus. E eu podia sentir sua respiração, com seu próprio ritmo, como se a gente nem estivesse no meio de um show, e eu respirei junto com ela até que, depois de meio segundo de eternidade, não consegui mais me segurar e a beijei de novo... E seus lábios eram cálidos, suaves e macios. E juro que eram doces... Lembro o seu gosto, sua cor e sua calidez... e a sensação que eles davam. ...e como se mexiam, acariciando os meus -isso foi o melhor-, eram como ondas levando um náufrago são e salvo de volta à praia. E a sua língua, ávida e brincalhona... era hipnótica, como se estivesse recitando em silêncio o segredo da vida, dá para entender? E eu me senti como- como se esse único beijo pudesse de fato me salvar.
E quando a noite chegou ao fim, eu não conseguia parar de sorrir; ainda não consigo parar de sorrir cada vez que eu lembro, e já passaram 75 dias...

August 23, 2010

500 days

AUTHOR'S NOTE: The following is a work of fiction.
Any resemblance to persons living or dead
is purely coincidental.

Especially you
.

- Sr. Silva? - A enfermeira disse com uma voz nasal que, em seus melhores dias, podia causar dores de cabeça.
- Sr. Silva? - Repetiu, irritada, enquanto uma velha senhora se levantava com dificuldade da cadeira, tentando se equilibrar com um bastão.
- Por aqui, Sra. Silva.
Os detalhes da sala já lhe eram familiares; afinal, era uma sala de espera e a espera nunca combinou com seus hobbies. Três vezes por semana repetia a mesma rotina: táxi, hospital, exames, médico, táxi, casa. Alguns rostos eram também familiares; o velho de oncologia, a garota da cadeira de rodas e a psicóloga que insistia em conhecê-lo de lugares impossíveis. Impaciente, levantou-se, pegou um cigarro e lembrou que é proibido fumar.
- Odeio hospitais - pensou, dirigindo-se de volta à cadeira enquanto punha o cigarro de volta no bolso, brincando com seu isqueiro. Uma mão tocou seu braço.
- Oi...
Virou-se, alarmado, e reconheceu a voz e os olhos negros.
- Olá. Que surpresa.
- É, é sempre interessante reencontrar uma pessoa; né?
- É sim, mas o que me surpreendeu foi você ter falado comigo. Já nos reencontramos algumas vezes, e você decidiu me ignorar.
Um ligeiro rubor cubriu o rosto dela.
- Sr. Espino?
- Sou eu - disse, levantando a mão acenando para a enfermeira-. Foi legal te ver, - virou-se e começou a andar- tchau.
- Espera.
- Oi?
- Vamos tomar um café? Depois da consulta?
- Tá, beleza. Te espero. - mentiu. Ele não ia esperá-la mais uma vez.

Ao sair da consulta, andando com passos apressados, pensando no discurso do médico, demorou a reconhecer a cabeleira que o esperava na porta. Ela girou sobre si com um sorriso nervoso enquanto afastava o polegar dos lábios.
- Vamos?
- Vamos.

Chegaram ao café em completo silêncio. Uma mulher conversava alegremente ao telefone numa mesa no meio do local; pouco se importava com o resto. A garçonete dirigiu-se à mesa que eles acabaram de escolher.
- Vais beber o que?
- Capuccino, por favor.
- Um capuccino para ela e um espresso, sem açúcar.
- Sim, senhor.
- ...sabe? Nunca te entendi.
- Você nunca tentou me entender, você tentou me adivinhar. E isso é impossível. É defeito de psicólogo, acham que não precisam perguntar nada para entender tudo sobre uma pessoa.
- ... - Ela olhou para a mesa, sem conseguir pensar em uma resposta para esse repentino lapso de agressividade.
- Desculpa, não foi a minha intenção ser rude.
- É que - sacudiu a cabeça, confusa, de um jeito que ele nunca tinha visto antes - tu começaste a complicar as coisas-
- O dia das mensagens quando você estava em Salvador?
- É.
- Na minha cabeça eu achei que iria torná-las simples.
- Mas fazendo isso? Como é que alguém ama tão fácilmente?
- Eu não te amava. - Disse ele, com voz calma.
- Então porque você fez isso?
Ele esboçou um sorriso ressignado e olhou ao redor, relembrando o discurso que tinha ensaiado em vão tantas vezes no passado.
- Eu gostava muito de você; eu sei que tal vez até para isso tenha sido rápido demais. Mas é o meu mal, mal de escritor. Tento viver tudo tão intensamente que se torne uma coisa digna de ser escrita. Por outro lado, eu tinha motivos; 90% deles, eu conhecia. Os outros dez... esses me deixavam louco. E eu tinha que saber se valia a pena me expor a isso; já tinha passado por situações similares antes de você... Mais que as necessárias.
Ela despejou a garganta, e mordeu o canto esquerdo do lábio inferior quando olhou para a garçonete que se aproximava com uma bandeja e os dois cafés.
- Seu pedido. - Disse a garçonete gentilmente, colocando a os cafés na mesa.
- Eu assisti o filme que me recomendaste. Você lembra?
- 500 dias com ela? Lembro, sim.
- E lembras do que me falaste ao recomendá-lo?
Ela sorriu.
- Lógico. Confirmas minha teoria?
- Duas vezes.
- Quais?
- Na cena do Ikea; quando Summer diz que não quer nada sério, ela torce a boca pro lado direito, do mesmo jeito que você; como aquele dia na praia, quando você me negou um beijo. - Sentiu o sangue colorindo seu rosto.
- E a outra? - Perguntou ela, complacida com o visível efeito dessa lembrança.
- Após a briga no bar, quando o cara começa a dar em cima de Summer e pergunta 'This is your boyfriend? THIS guy?'.
- Ah, sim. Lembrei.
- Depois da briga ela vai na casa dele, chega perto dele e fala com ele olhando para baixo. Você faz isso também.
- Você lembra muito bem das coisas.
- É minha maldição. Tentei remediá-lo, mas, infelizmente, o álcool não me ajuda nesse caso.
Ambos riram, com o tipo de riso que comemora situações constrangedoras. Ele continuou:
- Lembra quando você me disse que eu me fixo muito nas coisas?
- Sim... Isso mudou? - levantou as sombracelhas, inquisitiva.
- Não, pois, como eu disse, não acontece muito.
- Sei.
- Você não era Summer... - hesitou.
- Como assim?
- Você não era Summer, eu já tinha mil dias de Summer quando te encontrei. Você era Autumn. E eu não queria 500 dias de ti, não assim.
- Mas...
- E eu não queria um sim; eu queria uma resposta. Mas talvez não seja tão simples assim - um pensamento atravessou a mente dele, era compreensão o que estava vendo? Ou talvez a estivesse sentindo ele próprio.
- Não é simples não.
- Sad but true.
- A minha vida amorosa sempre foi confusa.
- Sei como é.
Ela o olhou nos olhos, tentando adivinhar o significado dessa frase.
- Já é tarde - ele mentiu-. Deixa eu pagar o teu café.
- Posso pagar o teu?
- Está bem - sorriu. Alguma coisa dentro dele pareceu voltar à vida.
Quando a conta esteve paga, os dois deixaram o café. Uma vez na porta, eles se olharam; parecia que uma parede invisível entre eles tinha desabado.
- Vou te ver de novo? - perguntou ela, olhando para os sapatos dele.
- Espero que sim.

August 18, 2010

Destino

Alguns dias atras, algo me fez pensar em uma situação que ocorreu faz umas semanas. É sempre interessante reencontrar uma pessoa, mas é incrívelmente fascinante o encontro acontecer no lugar que você menos espera.
Estava eu em casa, perdendo meu tempo na frente do computador; fazia calor e decidi abrir a janela. Alguns segundos depois, vejo a silueta delgada de um rosto familiar; "eu conheço essa garota", pensei. Tentei atrair sua atenção e funcionou: fumamos, conversamos, conversamos e ah, também conversamos. Decidimos continuar o papo em um bar e lá conversamos mais: o que mais tinhamos em comum eram os nossos problemas. Foi uma descoberta, no mínimo, agradável. Então uma ideia atravessou a minha mente: "e eu que queria beber hoje... então não teria conhecido uma pessoa tão legal". E realmente, uma longa série de acontecimentos aparentemente aleatórios conspiraram a favor desse encontro, dessa descoberta:
Eu tinha acordado tarde, sem fome e triste. Acontece.
Tentei encontrar uma pessoa e não deu certo. Nada sério, bola pra frente.
Me arrumei para ir ao trabalho e lembrei que não tinha a chave da sala. Que merda.
Fui ao cinema, filme bom.
Saio do cinema, dor de cabeça. Que merda.
Tento encontrar a mesma pessoa e não dá certo de novo. Que dia ruim.
A dor de cabeça piora. Remédio ressolve.
Passo no supermercado, compro as coisas, esqueço a vodka. Normal.
Entro no msn e comento com uma amiga; ela me recomenda não beber, mas passear na
praia. Boa ideia.
Volto da praia e me sinto bem. Demorou.
Faz calor e abro a janela. Olha só quem tá ai...
Parece simples, mas; e se eu tivesse acordado quando o despertador tocou? E se eu tivesse encontrado aquela pessoa ou lembrado de levar a chave do escritório? E se eu não tivesse esquecido de comprar a vodka? E se minha amiga não falasse aquilo? E se ela não tivesse entrado porque talvez tivesse que passear com o cachorro? Só pode ter sido o destino.

Como aquele dia... Dessa vez, eu enxergo as mãos do destino mais claramente: Eu tinha voltado do Perú e meus amigos já estavam se mudando cada um para um canto diferente; então, voltei direto para a pousada. Aquele dia, começo de junho, eu tinha um 'quarto' que decidi não tomar; como consequência, veio o tédio e me convenceu a beber, chamo dois amigos que trabalham em casa e compramos as coisas, estamos bebendo na sacada quando um carro passa e alguém grita meu nome. Ligo para esse alguém e a convido para beber comigo; ela estava com um amigo e duas amigas. Dito amigo eu tinha conhecido quando os ajudei com um trabalho da faculdade; portanto, ele concordou. Quando chegaram, as apresentações foram feitas, e mais um encontro foi marcado. Tinha um show aquela noite em um bar perto de casa, lá nos encontramos. Lá eu queimei a calça dela e em troca ganhei um beijo. E muitos mais.
Imaginem só, se eu não tivesse ido pro Perú certamente ninguém teria se mudado; se eu tivesse tomado o 'quarto' aquele dia, não estaria na sacada no momento do grito. Se não tivesse sido véspera de feriado, ela não teria saido de casa. Se eu não tivesse conhecido e ajudado dito amigo, talvez ele não tivesse concordado de assistir à reunião. Se não tivesse tido show algum, nunca teriamos nos encontrado. É de ficar louco. Quantas coisas mais influenciaram os acontecimentos que levaram a tudo acontecer? Quantas vezes sem sabermos o destino susurra ao pé dos nossos ouvidos para decidirmos fazer o que ele prefere? Só pode ser o destino...

E sabem o que me indigna hoje? Que aquela noite, quase no fim da noite já, eu e ela estávamos num canto do bar, encostados em uma coluna de madeira, seus braços ao redor do meu pescoço e os meus ao redor da sua cintura; ela me beijava e se apertava contra mim. Aquela noite, quase num susurro, ela me perguntou:
- Você acredita no destino?
E eu, você acredita? Eu, incapaz de me render à vontade daquele deus caprichoso, ou talvez só querendo parecer intelectual, não achei nada melhor a responder que um simples
- Não.