September 05, 2010

500 days (III)

A garrafa de whiskey repousava na areia, incrívelmente branca agora. No céu, incrívelmente escuro, as estrelas, incrívelmente brilhantes, piscavam impassíveis. A brisa parecia explorar cada centimetro do seu corpo, desejava ficar assim para sempre. Observou-a, alguns metros à sua frente, girando sobre si com braços abertos, olhos fechados e um sorriso de satisfação tão perfeito que parecia ter nascido junto com ela. Ao longe, ouviu um tiro e ela vibrou em luzes. Como quem acorda de um sonho bom para um sonho melhor, ela abriu os olhos e caminhou na direção dele, cantarolando uma melodia que acabara de inventar.
- "E eles nunca vão saber... o lugar em que vivemos todos querem conhecer".
- Que lugar é esse?
Ela deitou na areia, sorrindo de novo, e respondeu.
- Estamos aqui agora.
Ele compreendeu. Havia perfeição em tudo que ele sentia nesse momento. Inclinando-se sobre ela, achou que pudesse escutar o seu coração batendo, calmo e frenético ao mesmo tempo. Beijou-a e ela pareceu voltar à realidade, compreendendo. Quando separou seus lábios dos dela, um leve gemido escapou do seu peito que subia e descia, agitado, enquanto ela franzia o cenho, ainda com olhos fechados.

...

A grande janela do quarto mostrava uma vista abrumadora da ponta; à distância, um velero cruzava as águas lentamente. Do outro lado, Michael Franti começara assobiar; ele olhou para a cama vazia, procurando com os olhos. Ela surgiu a través da porta do banheiro, nua.
- Adoro essa música.
O corpo nú dela era o único que conservava a perfeição que experimentara há umas horas atrás.
- Eu sei.
Ela ficou na varanda, junto dele, e acendeu um cigarro. Ele assistia às ondas golpear as pedras da praia, dezenas de metros embaixo. Lembrou do tiro que ouvira na noite anterior. Alguém havia morrido perto dele? Decidiu não fazer essa pergunta.
- Quanto tempo vais ficar na cidade?
- Queres saber quando eu vou embora? - um sorriso triste, ou talvez sarcástico, adornava seu rosto.
- Eu não disse isso.
- Pouco tempo, talvez não nos vejamos de novo.
- Bobagem, sempre precisarás de alguém para pagar a conta.
Ela soltou uma gargalhada. A inspiração daquela tristeza, ou talvez sarcasmo, parecia ter desaparecido; isso o aliviou. Ele acrescentou
- Nunca mais duvidarei quando tu falares em surpresas.
Ela riu de novo, ligeiramente ruborizada. Fixou seus olhos nos dele por alguns instantes e, incapaz de achar uma resposta apropriada, olhou em direção ao mar e deu uma tragada do seu cigarro.
- Vou tomar um banho - disse ela, entregando-lhe o cigarro.
Ele deu uma tragada, com a mente em branco, enquanto ela se afastava. Lançou o cigarro para o vazio.
- Queres companhia?
Ela parou no vão da porta, e o olhou nos olhos, sem se virar totalmente, com os dedos tocando suavemente ambos os lados. Seus olhos eram tão intensos que ele não conseguiu articular mais uma palavra. Ela atravessou o vão da porta e a fechou tras de si.
- Oh deus - pensou ele. Dirigiu-se à mesa e encontrou, em meio a garrafas vazias, uma que ainda continha um pouco de champagne. Se serviu uma dose e armou-se de coragem. Colocou seu cd favorito de smooth jazz, aumentou o volume, e chegou até a porta do banheiro. Com um sorriso nos lábios, girou a maçaneta.
A porta estava trancada.