AUTHOR'S NOTE: The following is a work of fiction.
Any resemblance to persons living or dead
is purely coincidental.
Especially you.
- Sr. Silva? - A enfermeira disse com uma voz nasal que, em seus melhores dias, podia causar dores de cabeça.
- Sr. Silva? - Repetiu, irritada, enquanto uma velha senhora se levantava com dificuldade da cadeira, tentando se equilibrar com um bastão.
- Por aqui, Sra. Silva.
Os detalhes da sala já lhe eram familiares; afinal, era uma sala de espera e a espera nunca combinou com seus hobbies. Três vezes por semana repetia a mesma rotina: táxi, hospital, exames, médico, táxi, casa. Alguns rostos eram também familiares; o velho de oncologia, a garota da cadeira de rodas e a psicóloga que insistia em conhecê-lo de lugares impossíveis. Impaciente, levantou-se, pegou um cigarro e lembrou que é proibido fumar.
- Odeio hospitais - pensou, dirigindo-se de volta à cadeira enquanto punha o cigarro de volta no bolso, brincando com seu isqueiro. Uma mão tocou seu braço.
- Oi...
Virou-se, alarmado, e reconheceu a voz e os olhos negros.
- Olá. Que surpresa.
- É, é sempre interessante reencontrar uma pessoa; né?
- É sim, mas o que me surpreendeu foi você ter falado comigo. Já nos reencontramos algumas vezes, e você decidiu me ignorar.
Um ligeiro rubor cubriu o rosto dela.
- Sr. Espino?
- Sou eu - disse, levantando a mão acenando para a enfermeira-. Foi legal te ver, - virou-se e começou a andar- tchau.
- Espera.
- Oi?
- Vamos tomar um café? Depois da consulta?
- Tá, beleza. Te espero. - mentiu. Ele não ia esperá-la mais uma vez.
Ao sair da consulta, andando com passos apressados, pensando no discurso do médico, demorou a reconhecer a cabeleira que o esperava na porta. Ela girou sobre si com um sorriso nervoso enquanto afastava o polegar dos lábios.
- Vamos?
- Vamos.
Chegaram ao café em completo silêncio. Uma mulher conversava alegremente ao telefone numa mesa no meio do local; pouco se importava com o resto. A garçonete dirigiu-se à mesa que eles acabaram de escolher.
- Vais beber o que?
- Capuccino, por favor.
- Um capuccino para ela e um espresso, sem açúcar.
- Sim, senhor.
- ...sabe? Nunca te entendi.
- Você nunca tentou me entender, você tentou me adivinhar. E isso é impossível. É defeito de psicólogo, acham que não precisam perguntar nada para entender tudo sobre uma pessoa.
- ... - Ela olhou para a mesa, sem conseguir pensar em uma resposta para esse repentino lapso de agressividade.
- Desculpa, não foi a minha intenção ser rude.
- É que - sacudiu a cabeça, confusa, de um jeito que ele nunca tinha visto antes - tu começaste a complicar as coisas-
- O dia das mensagens quando você estava em Salvador?
- É.
- Na minha cabeça eu achei que iria torná-las simples.
- Mas fazendo isso? Como é que alguém ama tão fácilmente?
- Eu não te amava. - Disse ele, com voz calma.
- Então porque você fez isso?
Ele esboçou um sorriso ressignado e olhou ao redor, relembrando o discurso que tinha ensaiado em vão tantas vezes no passado.
- Eu gostava muito de você; eu sei que tal vez até para isso tenha sido rápido demais. Mas é o meu mal, mal de escritor. Tento viver tudo tão intensamente que se torne uma coisa digna de ser escrita. Por outro lado, eu tinha motivos; 90% deles, eu conhecia. Os outros dez... esses me deixavam louco. E eu tinha que saber se valia a pena me expor a isso; já tinha passado por situações similares antes de você... Mais que as necessárias.
Ela despejou a garganta, e mordeu o canto esquerdo do lábio inferior quando olhou para a garçonete que se aproximava com uma bandeja e os dois cafés.
- Seu pedido. - Disse a garçonete gentilmente, colocando a os cafés na mesa.
- Eu assisti o filme que me recomendaste. Você lembra?
- 500 dias com ela? Lembro, sim.
- E lembras do que me falaste ao recomendá-lo?
Ela sorriu.
- Lógico. Confirmas minha teoria?
- Duas vezes.
- Quais?
- Na cena do Ikea; quando Summer diz que não quer nada sério, ela torce a boca pro lado direito, do mesmo jeito que você; como aquele dia na praia, quando você me negou um beijo. - Sentiu o sangue colorindo seu rosto.
- E a outra? - Perguntou ela, complacida com o visível efeito dessa lembrança.
- Após a briga no bar, quando o cara começa a dar em cima de Summer e pergunta 'This is your boyfriend? THIS guy?'.
- Ah, sim. Lembrei.
- Depois da briga ela vai na casa dele, chega perto dele e fala com ele olhando para baixo. Você faz isso também.
- Você lembra muito bem das coisas.
- É minha maldição. Tentei remediá-lo, mas, infelizmente, o álcool não me ajuda nesse caso.
Ambos riram, com o tipo de riso que comemora situações constrangedoras. Ele continuou:
- Lembra quando você me disse que eu me fixo muito nas coisas?
- Sim... Isso mudou? - levantou as sombracelhas, inquisitiva.
- Não, pois, como eu disse, não acontece muito.
- Sei.
- Você não era Summer... - hesitou.
- Como assim?
- Você não era Summer, eu já tinha mil dias de Summer quando te encontrei. Você era Autumn. E eu não queria 500 dias de ti, não assim.
- Mas...
- E eu não queria um sim; eu queria uma resposta. Mas talvez não seja tão simples assim - um pensamento atravessou a mente dele, era compreensão o que estava vendo? Ou talvez a estivesse sentindo ele próprio.
- Não é simples não.
- Sad but true.
- A minha vida amorosa sempre foi confusa.
- Sei como é.
Ela o olhou nos olhos, tentando adivinhar o significado dessa frase.
- Já é tarde - ele mentiu-. Deixa eu pagar o teu café.
- Posso pagar o teu?
- Está bem - sorriu. Alguma coisa dentro dele pareceu voltar à vida.
Quando a conta esteve paga, os dois deixaram o café. Uma vez na porta, eles se olharam; parecia que uma parede invisível entre eles tinha desabado.
- Vou te ver de novo? - perguntou ela, olhando para os sapatos dele.
- Espero que sim.