Um beijo rápido marcou o fim do encontro. Sem se importar como teria se importado no passado; acendeu um cigarro, seguindo-a com a vista enquanto ela se dirigia ao carro. Inalou mais uma vez o fumo que invadiu, pacificador, os seus pulmões. Um carro passou na sua frente; ela beijou as pontas dos dedos e acenou, sorrindo. Ela mudara o cabelo, mas ele não percebera. Também não percebera que era a primeira vez que ele a via de unhas compridas, que usava o mesmo perfume que usou no dia em que se conheceram, ou que pequenas rugas começaram a aparecer no seu rosto. Deixara passar também o peso nos lábios que faziam parecer forçados quase todos os seus sorrisos. Não percebera, enfim, esse ar de insatisfação que governava os gestos dela. Assistindo impassível à sua própria falta de observação, inventou uma desculpa:
- Foda-se.
Começou a andar, com o cigarro acesso e à procura de um táxi, enquanto buzinas competiam para chamar a sua atenção. Absorto em seus pensamentos, ele ignorava tudo ao seu redor. Ignorava os próprios passos, pronunciando vários 'perdão' apenas audíveis após esbarrar em algum desconhecido. Ignorava as luzes, de postes e anúncios, que cegavam seus olhos e o impediam de ver as estrelas, tímidas no começo da noite. Ignorava até o próprio vento que roubava descaradamente tragadas do seu cigarro. Seu celular tocou enquanto ele entrava no táxi.
- Pra onde?
- Só dirija até meu dinheiro acabar.
O taxista sorriu, desconfiado.
- Alô?
- Oi, acabei de chegar em São Luis. Vamos nos ver?
- Drinks no lugar de sempre?
- Já estou aqui.
Desligou com um estalo no pulso e um sorriso nos lábios, mas o lugar de sempre fugia à sua memória. Depois de alguns minutos perdidos, ele, no taxi, chegou ao local marcado.
Uma moça o esperava; era uma velha amiga, mas ele não pensou nisso. Havia-se acostumado com outro tipo de lembranças: os cabelos loiros, os olhos cinzas cercados de um preto abrumador, o nariz, artificial, os lábios alegres e, especialmente, aquelas curvas que anunciavam um grande estado de espírito, com um profundo aprécio ao mundo das noites sem dia, que a deixava sempre disposta ao sexo sem amor. No céu, a lua era grande e brilhava, mas estava partida pela metade e amarela; parecia doente.
- Nunca tinha percebido como as coisas mais belas podem parecer tão tristes - as palavras escaparam da sua boca, e temeu estar sendo inoportuno. Ela o abraçou, rindo, com um abraço que lhe esquentou o sangue.
- Não sei se ficar feliz por me achares tão bela ou preocupar-me por me achares tão triste - a brisa sacudia seu cabelo enquanto ela o olhava.
- Estás radiante, você toda, radiante. Cada detalhe da tua aparência perde importância frente ao conjunto todo e o efeito que ocasionam - estava sendo sincero.
- Então fico feliz - respondeu, com um sorriso brilhante -. Vem - o segurou pelo braço, puxando-o -, tu demoraste muito, eu comecei a beber e agora quero continuar. Preciso de alguém para pagar a conta.
Ele soltou uma gargalhada.
- Suponho que algumas coisas nunca mudarão.
- Para de reclamar e senta comigo.
Sentou pesadamente na cadeira, o alívio que sentira com a gargalhada tinha passado.
- Como estão as coisas? A ilha ainda te trata bem?
- Suponho que sim, os negócios andam bem, alguns lugares legais tem aparecido...
- E a namorada?
- A namorada... - o final da frase veio acompanhada de uma risadinha sarcástica - Namoro implica amor. O que a gente tem é... só conveniência - observou o sorriso dela se dissolver enquanto seu olhar se carregava de algo triste, que ele odiava: compaixão.
- Devias terminar com ela então, abandonar tudo e viajar o mundo inteiro; conhecerias alguém e te apaixonarias, e quem sabe algum dia conseguirias chamá-la de namorada.
- Não acredito mais nisso - replicou, rindo-, mas a idéia de viajar o mundo conhecendo mulheres lindas realmente me atrai.
- Eu não quis dizer isso, quis dizer que deverias procurar o amor.
- Quando eu tinha 17 anos, uma garota que eu amava me perguntou se alguma vez alguém, cuando eu tivesse que ir embora, havia me abraçado tão forte como se estivesse me segurando, e pedido para eu ficar com ela. Hoje, muitos anos e mulheres depois, a resposta continua a mesma.
- Eu lembro que tu gostavas daquela música... daquele filme.
- Tua memória me surpreende hoje - aproveitou para fugir do assunto que sempre lhe ganhava olhares de compaixão.
- A noite ainda tem muitas surpresas pela frente - respondeu ela, de maneira provocadora.
- Um brinde a isso.
Beberam com aquela intimidade que só o tempo dá; comentando o passado e o futuro, mas sempre fugindo do presente.
- Que estavas fazendo quando me ligaste?
- Já esqueceu? Eu disse que estava bebendo.
- Ah, sim, e esperando alguém para pagar a conta; agora lembrei - ela riu.
- E tu, estavas com alguma mulher? Interrompi a diversão?
- Eu estava saindo de um café, de um encontro com uma mulher; mas você não interrompeu nada, muito menos diversão.
- Coitada! - festejou, rindo - Se ela é tão feia, então porque estavas em um café com ela?
- Ela não é feia, é das mais lindas que eu conheço; e estava em um café com ela porque ela queria conversar sobre o passado.
- Então é das antigas? Uma dessas muitas que mencionaste? - ele entendeu a provocação. Ela nunca achou que ele fosse um conquistador eficaz.
- Não. Na verdade, ela poderia ter sido uma das poucas. Mas chega, já respondi muitas perguntas essa noite e ainda não vi nenhuma das surpresas que tu mencionaste.
- Bom... - disse ela, olhando ao redor; claramente, uma surpresa estava por vir - Eu tenho um presente para ti, para lembrar dos velhos tempos - ela mostrou a lingua.
- Garçom! Uma garrafa de whisky e a conta.