Demorou alguns segundos antes de aceitar que aquela mulher realmente dizia ser um anjo. Com um sorriso que mostrava o quão absurdo era isso, virou as costas e começou a andar.
- Um anjo... Cada coisa -pensou-.
Acendeu um cigarro e continuou andando. Um pensamento atiçou sua curiosidade.
- Espera ai, como você sabe quem eu sou? - disse em voz alta, com um tom ligeira e propositalmente amedrontador, enquanto se voltava. Ela sumira. Aguçou a vista e procurou, em vão, nas proximidades. A rua estava deserta. Confuso, retomou seu caminho, pensativo.
- Calmantes e whisky não fazem um bom par - anotou mentalmente.
Andou mais alguns quarteirões, preocupado com a idéia de não poder confiar na sua própria mente. Era o único que lhe restava. O forte miado de um gato o tirou dos seus pensamentos. No alto de algumas caixas empilhadas na calçada, um gato preto o observava. Ele sorriu. Esse tipo de coincidências sempre o divertira. Se dirigiu, então, até o táxi que aguardava na esquina. O motorista, do lado de fora, fumava um cigarro. Ele estava ouvindo blues; Robert Johnson.
- Primeiro um gato negro e agora um guitarrista que vendeu a alma ao diabo! Essa noite promete! - declarou sorridente.
O motorista respondeu com um sorriso, e perguntou:
- Para onde?
- Calma, termina teu cigarro e deixa terminar o meu.
- Pode fumar no carro, senhor.
- Excelente. Essa noite fica cada vez melhor.
Ambos entraram no carro.
- Para onde? - inquiriu mais uma vez o motorista.
- Vamos dar umas voltas na praia. Depois eu decido.
O motorista olhou para Frank como se este estivesse maluco. Porém, aceitou.
"...Early one morning the blues came falling down
All locked up in jail, I'm prison bound..."
Abandonaram a rua deserta. Noctâmbulos vagabundavam pelas ruas escuras, alguns solitários, outros mal acompanhados. Em uma esquina, um sujeito de aparência estranha vendia remédios antimonotonia.
"...Thinking of my baby and my happy home..."
Na próxima esquina, do lado de uma viatura estacionada, um policial conversava alegremente com uma prostituta.
- Olha só isso - disse Frank ao motorista -. Será que policial tem desconto?
Ele respondeu gargalhando:
- Cem por cento de desconto. É a esposa dele.
- Você o conhece? - perguntou Frank cautelosamente.
- Não ele. Mas conheço ela.
Ambos riram.
- Ele policial. Ela puta... Aposto como o filho deles vai ser político.
Mais risadas.
- Não me surpreenderia.
Deixaram o casal para trás, e, alguns metros à frente, pararam em um sinal. Frank olhava, absorto, a luz vermelha.
- Você acredita em anjos? - perguntou ao motorista, que olhou para ele com surpresa.
Após poucos segundos, ele respondeu.
- Quem acredita em anjos acredita em deus.
- Isso é um não?
- Exatamente - respondeu o motorista, fazendo uma curva.
Frank observou o casal desaparecendo no retrovisor. Um brilho prateado chamou sua atenção.
- É pouco comum um atéu ter um crucifixo no seu carro.
O motorista passou a marcha sem olhar para Frank ou o crucifixo.
- É parte de uma coleção.
- Coleção de crucifixos? Claro, todos os atéus fazem isso - retrucou Frank, com um sorriso sarcástico.
- Coleção de coisas bizarras. Ganhei esse crucifixo em uma partida de poker. O homem que perdeu disse que o crucifixo o protegia do demônio.
- Não há nada tão bizarro assim nessa história - observou Frank.
Dessa vez, o motorista o olhou nos olhos por um instante. Ele sorria. Esperava essa reação.
- Esse homem morreu uma hora depois. A causa da morte? Desconhecida.
- ... isso é bizzarro - Frank levantou as sobrancelhas, surpreso -.
O motorista riu. Apontando para a esquerda, disse:
- Prédio azul, quinto andar. Foi lá que "o demônio" matou aquele homem.
O prédio aparecia avelhentado, mas ainda mantinha o ar nobre que tivera em tempos melhores. Frank sentia um grande apelo por esse tipo de decadência. Em uma janela do sexto andar, uma velha mulher, de aparência perturbadora, fumava; parecia uma ave de rapina à espreita de novas vitimas. Como lendo sua mente, o motorista continuou:
- A velha da janela já enterrou 4 maridos e 5 filhos. Fica o dia inteiro fumando na janela. As crianças do bairro dizem que ela não sai de lá nem para comer. Ninguém sabe ao certo quantos anos ela tem, pois não fala com ninguém. No porta-luvas tem uma foto dela e o quarto marido, morto, sentado na cama do lado dela.
- Que personagem interessante - pensou Frank -.Como você conseguiu a foto então, se ela não fala com ninguém? - respondeu.
- Você é policial? - o tom da pergunta era defensivo.
- Quê mais você tem no carro? - respondeu Frank, sem se importar.
O motorista o observou, desconfiado, por alguns instantes.
- Uma pedra do túmulo de um cantor - respondeu finalmente -. Mas ela não está assombrada como o vendedor garantiu. Só a conservo porque paguei caro por ela. E mais nada.
- Não é uma coleção muito grande.
- Não é um carro muito grande. O resto da coleção fica em casa.
- Que classe de coisas?
- Uma cruz de madeira que achei flutuando na beira-mar. Um côco que matou um infeliz que não acreditava na gravidade. Coisas assim.
Frank sorria. Gostava desse cara. Alguns minutos depois, chegaram até a praia. Ele decidiu ficar no bar de sempre.
Ao chegar, desceu do táxi, pagou o motorista e despediu-se. Acendeu um cigarro e observou as estrelas. Ao terminar, entrou no bar e se dirigiu até uma mesa com vista ao mar. Quando tinha andado dois passos em direção à mesa, percebeu um perfume no ar. Buscou ao seu redor, e então a viu. Ela não estava só.