June 14, 2013

Se pá, quem sabe

Que sorriso, cara. Dente. Lábio. Tudo numa configuração perfeita. Convite à luxuria. Vi a boca dela, perfeita, molhada, brilhante, tão perto... Separei os lábios num sorriso nervoso e me sumergi sem medo naquele beijo familar, conhecido, antigo. Tão próximo que derrete toda memória triste com o calor da primeira vez. Parei. Faltou o ar. Olhei pra ela. Que mulher! Forte, livre, só... Boiando no vácuo duma liberdade surreal. Aqueles lugares tão incompatíveis com ela... Mas ela estava aquí. Forte, livre, só... Boiando num mar de saudade. Com aquele calor que derrete toda memória triste do estupor da última vez. Podia sentir aquilo desabando. Aquela segurança do conhecido, do familiar, do acostumado. Me acordou com un cafuné e um beijo. Me disse adeus. Eu levantei pra abrir a porta. A mesma porta q eu abri p dezir bem-vinda; a casa é pequena mas o coração é grande. E ela entrou, sentiu-se bem-vinda, bebeu, fumou e se despiu. Deixando aquela roupa antiga, familiar, desnecessária, no chão. Nua, em todo seu esplendor, em toda a suavidade da sua pele perfeita, toda a perfeição da sua pele molhada pelo suor da jornada. Toda a imperfeição do passado distante. O presente tão perto da felicidade que parecia suspeito. A presença inexplicável de espíritos indispensáveis. A imaginação frustrada ao comparar realidade com toda fantasia possível. Paisagem surreal. Ela. Seu corpo nú. Pele suave, macia, Inexplicável. Impossível. 
Indescritível!
Inatingível. Só a imaginação mais inocente consegue criar um universo com ela. Mas não. Nunca. Jamais. Se foi. Não voltará. Ou quiçá hão de se encontrar, quem sabe, indescritível. A sensação incomprensível. Ou, se pá, inatingível. Daquela história tão antiga, daqueles tempos tão longínquos... Daquele beijo tão pequeno... Deixado atrás, sozinho... Numa história tão fútil... Num passado tão distante. Numa história indescritível, personagens tão fatais, tão reais, tão sozinhos. Que se encontram em anos tres. Na intimidade de uma vodka, na complicidade de um red bull. Na intimidade de um 'eka'. Na complicidade de um 'a gente esteve lá ontem'. A via expressa. Miraflores, Barranco. O vento nos molhando. Aquela sensação no fundo do ser que enche de esperança a uma alma em pena. Peixe, cebola, limão. A desculpa do ensinar. O perdão do aprender. Serei sempre teu. Mas nunca serás minha. Ou se pá, quem sabe, seremos nossos. Numa noite distante, ao som de um jazz vadio. Um violão desafinado. Uma vodka vagabunda. Aquela garota teimosa, aquele cara gente fina. Nós todos. Só nós dois. O vento soprará em direção a nós. E seremos dois, no frio, na chuva, na água, no desespero, na calma de ter descifrado o vento. No prazer do reencontro. Na confiança do adeus. No adeus de um último beijo. Um cafuné. Beijo na boca. O sol do entardecer. Um baseado. Lima feliz com sua chegada. Lima chorando com a sua partida. Meu coração vazio na despedida. Cheio de bem-vindas. Você. Eu. Nós dois. Jamais. Pra sempre. Quem sabe. Algum dia. Eu até tentei. Mas não deu. Ela vai rir, eu sei. Mas agora não dá. Você lá, eu aqui. Se pá, quem sabe, voltaremos a beber, bater o copo com uma desculpa absurda, dizendo "salud por eso". Se pá, quem sabe, sei lá, eu não sei. Vc aqui, eu lá. Um desencontro.

E se pá, quem sabe, deixa ali. No desarranjo da sujeira, do chão molhado. Do peito desabado no desespero da solidão. Você lá, eu aqui. Se pá, quem sabe, seremos nós dois algum dia. Mas se pá, quem sabe, não.