September 16, 2010

500 days (V)

Acordou num quarto pequeno de paredes brancas. Bocejando, olhou ao redor. Um retrato e um cinzeiro na escrivaninha. Um violão no canto. Ele estava deitado numa cama de lençóis brancos. O pequeno beagle pulou pra cima dele, balançando o rabo alegremente.
- Lilo, desce! - disse ele. Abraçou o cachorro e o colocou de volta no chão. Ele saiu correndo do quarto, latindo.
Ao seu lado, ela despertou. Ele olhou pra ela, parecia dez anos mais jovem.
- Oi amor...
- Oi. Desculpa, não queria ter te acordado.
Ela aceitou a desculpa com um beijo.
- Está tudo do jeito que a gente planejou... - disse ele, fitando-a nos olhos, absorto.
- Não. Ainda não encontramos a vinícola. E você ainda não toca em barzinhos.
- Mas já me inspiras uma música por dia - respondeu ele sorrindo.
Ela riu. Aos ouvidos dele, seu riso era um festejo. Ele a amava. Anunciou:
- Vou fazer café da manhã. Fica aqui, prepararei tudo e o tomaremos na cama, juntos.
- Não vá. Fica comigo. - Era quase um suspiro.
- Como vou dizer não agora?
Ela fechou os olhos, sorrindo. Na janela, o sol anunciava um dia esplêndido.
- Que faremos hoje? Estava pensando em levarmos o Lilo para o parque, dar uma volta na cidade e depois tomar um vinho na varanda, olhando o pôr do sol...
Ela abriu os olhos.
- Podia ser um pouco mais criativo. Nós fizemos isso ontem.
Ele abriu os olhos, desconcertado. O esforço para lembrar foi em vão.
- É, mas continua sendo um bom plano - disfarçou-.
- Você não lembra porque nunca aconteceu. Ontem nunca aconteceu. Isto é um sonho, você está sonhando.
- Eu sei. - Uma súbita tristeza o invadiu, e transpareceu nessas duas palavras.
Ela riu cruelmente, divertida.
- É que você realmente pensou que isto era verdade? Eu morando contigo? Acordando do teu lado? Todo dia? Nunca ouvi coisa mais idiota na minha vida - disse, e riu mais uma vez; de uma maneira tão encantadora que só seria ruim acompanhada das palavras com que fora acompanhada.
- Cala a boca - disse ele, saindo da cama. Foi até a porta, onde Lilo o esperava, grunhindo, ameaçador.
- Até o cachorro te odeia! Olha só que beleza - ela rolava na cama, rindo. Parecia extasiada com o dano que causava.
Ele olhou ao redor, tentando fugir. Na janela, o vidro estava quebrado. Do lado de fora, uma noite escura. O vento que entrava era frio, antinatural. Numa mesa no canto, descobriu uma arma. Apontou-a para o cachorro e atirou. Ela continuava rindo.
- Julia, cala a boca. Por favor... - a arma agora apontava para ela.
- Quem você quer enganar? Tu não tens coragem para isso. - As palavras saiam da sua boca como balas. - Você não é nada! Nada! Nada!
Ele colocou a arma na própria cabeça.
Acordou sobressaltado. Os gritos dela ecoavam na sua cabeça. Engoliu, tentando se livrar do nó na sua garganta. Seu celular tocava no chão. Ele atendeu.
- Parabéns, mané! - a voz do outro lado era agradávelmente familiar.
- Obrigado. Mas não foi ontem? Que horas são?
- As 10, tu ainda tens duas horas para curtir. Tu estavas dormindo?
- Estava. Obrigado por me acordar.
- De novo pesadelos? - perguntou a voz do outro lado gravemente.
- Só um. Sempre o mesmo. E está ficando pior.
- Estou começando a ficar preocupado.
- Não fique.
- Eu sei o que está acontecendo, tentas sempre reviver esse sonho mas não consegues mais controlâ-lo. Talvez esteja na hora de parar.
- Talvez.
- A vida é melhor que os sonhos, Frank. Não esqueça disso. Procura ocupar teu tempo, conhecer pessoas, viajar. Poderias me visitar, sempre sonhaste com morar na Europa. Poderias voltar a trabalhar.
- Temos gente que trabalha por nós, tu sabes disso - retrucou, rindo-. Vou sair agora. A gente se fala depois.
- Você vai estar bem?
- Vou. Relaxa.
- Está bem, divirta-se. E manda notícias. Abraço.
- Marcelo - hesitou-.
- Fala.
- Obrigado por ligar.
Desligou o celular e o deixou cair no chão mais uma vez. Foi até o banheiro e se examinou em frente ao espelho. Olhos vermelhos, olheiras profundas. Era a própria imagem do desespero. Tomou um calmante e entrou no chuveiro.

Eram quase as onze quando deixou o apartamento. Decidiu ir pela escada. Ao chegar na rua, uma mulher falou com ele.
- Olá. Eu estava esperando por você - ela sorria levemente-.
Ele a analisou: cabelos escuros, pele clara, traços delicados e curvas suaves. Parecia ter sido desenhada por um artista muito timido. Colocou o seu melhor sorriso no rosto e respondeu
- Pois então sou um cara de sorte - deu 3 passos em direção a ela, e estendeu a mão-. Prazer, meu nome é-
- Eu sei quem você é, Frank. Como disse, eu estava esperando por você.
Ele fitou-a nos olhos; meio divertido, meio desconcertado. O esforço para lembrar foi em vão.
- Olha, desculpa, eu tive um dia dificil. Mas aposto que qualquer outro dia eu lembraria de ti. Mas já que estavas me esperando e eu estou aqui; por que não vens comigo? Vou dar uma volta e talvez tomar uns drinks. E depois... quem sabe?
- Desculpa, Frank. Não estou aqui para isso - ela sorria de uma maneira estranha. Era um sorriso leve, de mãe-.
- Posso saber o porquê da sua visita então? - perguntou, dando um passo para trás. Essa mulher parecia estar louca.
- Estou aqui para te salvar.
- Me salvar? Salve-me do tédio, então, e volte para o seu hospício. Quem é você, afinal?
- Eu sou um anjo.