November 28, 2010

500 days (VII)

Sem esforço, ignorou-a; mas percebeu que seu acompanhante olhava para ele. Dirigiu-se até uma mesa vazia que parecia aguardâ-lo. Sentou-se e, tirando uma caneta do bolso, fez uma pausa para observar o mar e a lua, antes de começar a rabiscar silenciosamente em um guardanapo. Vozes e risos flutuavam ao seu redor. Concentrado, não percebia o tempo passar. Levantou os olhos. Uma gaivota voava em torno à lua. "A lua gira no céu e canta", escreveu. Longe, a usual fileira de navios assemelhava uma cidade perdida no meio do mar. Súbitamente, um copo foi colocado à sua frente.

- Seu whisky, senhor - anunciou uma voz feminina, inconfundível.
- Pode levar de volta. Não pedi nada - respondeu ele.
Levantou a vista. Ela sorria. Ele sorriu também, cínicamente, e disse.
- Júlia, desculpa. Pensei que fosse outra pessoa.
- Você está mentindo - ela riu.
Ele parou um instante para observá-la. Conservava aquele belo ar de abandono, como um prêmio que ninguém reclamara.
- Você ainda sabe quando eu estou blefando. Impressionante. Vais sentar comigo?
- Só se você quiser a minha companhia.
- Bom, nesse caso... - disse ele, encarando-a impassível.
Ela pareceu hesitar por um instante, mas, finalmente, sorriu e sentou-se.
- O que houve com teu acompanhante? - perguntou ele, sem olhar em direção à mesa que aquele ocupara.
- Ah, bom - ela desviou o olhar-. Ele teve que ir embora.
- Então é a ele que devo a tua companhia essa noite. Que considerado - ela sorriu. Ele virou-se e chamou um garçom-. Brindemos por isso.
Um homem jovem de cabelo engominado e uniforme impecável se apresentou.
- Traga uma garrafa de espumante.
- Sim senhor, alguma preferência?
- A melhor da casa.
- E para a senhorita? - perguntou, inclinándo-se ligeiramente para a frente, com um sorriso exagerado que parecia ter sido ensaiado no espelho.
- Nada, obrigado - respondeu Júlia gentilmente.
- É só isso, Don Juan, obrigado.
O garçom pareceu perplexo.
- Meu nome é José.
Frank e Julia sorriram, divertidos.
- Bom saber - disse Frank.
A expressão confusa persistia no rosto do garçom enquanto este se dirigia ao bar.
- Você não existe - disse Julia, ainda sorrindo.
Ela viu o guardanapo na mesa, curiosa. Com um movimento grácil, pegou-o e começou a ler. Uma risada diferente chamou sua atenção. Na beira do mar, uma mulher girava sobre si com os braços abertos, enquanto um homem a observava, sentado na areia, a uns metros de distância.
- Déjà vù... - disse ele.
Ela não o ouvira.
- "A lua gira no céu e canta", gostei dessa frase.
- É, eu também não gostei de nenhuma das outras - disse ele, com um sorriso apertado.
Ela inclinou a cabeça para um lado, com expressão impaciente.
- Não é isso que eu quis dizer... "they haunt and taunt as they dance, still / as they crawl and haul their sorrows through / it never ends, it never ends"
Ele bebeu seu whisky de um só gole.
- Mas é a verdade. A minha inspiração nunca voltou realmente depois de ti.
O olhar dela pareceu perder um pouco do seu brilho. Forçou um sorriso fingido e disse
- Isso foi há tanto tempo... Eu não sou esse monstro que estás pensando.
Ele riu.
- Tu nunca foste nada do que eu pensei que fosses.
Ela baixou os olhos. Ele ainda sorria. O garçom a resgatou.
- Seu pedido - disse, desconfiado.
Depositou as taças na mesa, serviu ambos e foi embora.
- Vamos brindar - disse Frank-. Às noites interessantes de encontros inesperados.
- Aos brindes falsos - disse ela, aparentemente recuperada e indiferente.
- Aos sonhos frustrados.
- Às manhãs frias e sem poesia.
- Às noites quentes e sem alegrias.
- Aos beijos sem amor.
- Às mentiras sem dor.
- Às nossas vidas sem nós - ela sorriu.
- Saúde.
Ambos beberam, com os olhos fixos, um no outro, enquanto bebiam. Cada um tentava descifrar o outro. Adivinhar o outro.
- Adoro espumante - disse ela.
- Sempre preferi whiskey.
- Mas hoje pediste espumante. Por quê?
- Por que eu sei que adoras espumante. E espumante é mais adecuado para comemorações.
- Que estamos comemorando?
- Tua presença, é lógico. E... - olhou para o relógio - sim, ainda é meu aniversário, então...
- Eu tenho que ir.
Ele a observou, familiarmente surpreso.
- Boa noite.
- Até a próxima.
Observou-a abandonando o lugar, andando com cadência por entre as mesas. Ao chegar a rua, percebeu que o acompanhante voltara. Eles começaram a discutir.