September 13, 2010

500 days (IV)

A porta do elevador se abriu enquanto uma voz feminina anunciava o sétimo andar.
- Está cheio - ele anunciou, com o cigarro ainda nos lábios, a uma velha mulher, enquanto apertava irritado o botão que fecharia as portas novamente.
Lembrou da cena que acabara de acontecer alguns andares acima. Começou a rir. Atravessou o lobby ignorando o sujeito baixinho que lhe pedia apagasse o cigarro. Ao chegar na calçada, olhou ao redor. O sol escaldante o cegava.

 ...

Fechou a porta do apartamento tras de si e colocou as chaves na mesinha próxima à porta. Pôs um disco para tocar e serviu-se uma dose de whiskey. Sentou no sofá e deixou a bebida lhe queimar a garganta. Olhou para o retrato na mesa de centro. A moldura de prata estava amassada em vários pontos, e o vidro, quebrado. Deixou o copo na mesa e pegou o retrato. Relembrou o encontro da tarde anterior e todo o peso do tempo que caiu sobre os traços da fotografia o atormentava. Cedo o suficiente, lembrou o que sucedeu àquele encontro. O bar, a praia, o hotel. Sorriu. Mais um gole de whiskey. Nostálgico, acariciou o retrato e deu um grito quando o vidro cortou seus dedos. Se levantou e foi até a cozinha, xingando. Jogou o retrato no lixo, mais uma vez. Voltou à sala e olhou ao redor. Um ar de decadência governava o lugar. Vidros rotos, copos vazios. Cinzeiros cheios, buracos queimados no sofá. E Jane Bunnett chorando Lágrimas Negras no fundo. Um calendário, meio escondido embaixo de um banco, chamou sua atenção. Pegou-o e descobriu que dia era.
- Feliz aniversário - pensou -, um ano mais perto da morte.
Essa idéia lhe trouxe conforto. Tudo fica mais decadente após algum tempo. Lembrou da frase que leu em algum lugar: "Quando você chega em uma certa idade, tudo fica um pouco mais decadente, existe um preço psíquico. Não há nada mais sórdido do que acordar sem saber o nome da pessoa ao seu lado". Ele concordava. Com isso e, também, com dormir com uma pessoa sem ter realmente um motivo para isso. Cuidadosamente, colocou o calendário de volta no seu lugar embaixo do banco e dirigiu-se ao quarto. Tirou a roupa, espalhando-a cuidadosamente pelo chão. Foi até a janela aberta, enquanto João Gilberto cantava
- "Estate il sole che ogni giorno ci scaldava
Che splendidi tramonti dipingeva
Adesso brucia solo con furore
".
Ele soltou um grito repentino e respirou, mais calmo. Fechou os vidros, cobertos de tinta negra, e foi até a cozinha. Tirou o retrato da lixeira, colocando-o de volta na mesa em frente ao sofá. Voltou ao quarto e deitou na cama, olhando para o teto, escuro.
- Feliz aniversário - disse em voz alta, mais ninguém iria falar isso nesse dia.
Fechou os olhos e durmiu.