us, freaks
uma coleção de relatos curtos, não completamente fictícios
Março 06, 2011
Ou talvez
Será em um dia frio como qualquer outro dos teus dias. Esperarei em pé em frente à tua escola ou talvez sentado na calçada segurando uma rosa cor de rosa porque uma vermelha seria muito óbvia. Ou talvez anos depois em Garki ou Maitama em alguma praça qualquer em um dia tão quente que nos lembrará do Brasil. Ou mesmo no campus na cidade mais bonita que já conheceste, andando pelos corredores com um livro nas mãos ou sentada em algum jardim com o cabelo preso pensando em alguma conversação que acontecera minutos atrás, sem óculos, pois ninguém precisa enxergar nada enquanto pensa sobre as coisas que acabaram de acontecer. E então levantarei da calçada com a rosa cor de rosa nas mãos roxas de frio e sacudindo a neve da velha calça que usei no dia em que te conheci mas então lembro que te conheci à noite e não vestia uma calça mas uma bermuda porque foi no Brasil que te conheci e no Brasil é sempre quente demais para usar uma calça em qualquer festa que acontecesse do lado da piscina. Ou segurando então o violão que peguei emprestado do hippie que conheci na véspera e gostou tanto da minha história, até sentar do teu lado e interromper teus pensamentos tocando aquela velha canção que cantei para ti tantas vezes enquanto te via adormecer deitada tão longe, sorrindo de olhos fechados cada vez que eu entonava levo você no olhar. E então tu acordarás, e sorrirás mas dessa vez sem fechar os olhos e em silêncio porque tu nunca me interrompes quando estou cantando para ti. Ou talvez porque faz tanto tempo que eu não canto para ti enquanto adormeces naquela cama que adoras mas agora está tão longe porque Garki ou Maitama é tão longe de casa que significa várias semanas em um barco sem adormecer ao som da voz do meu violão. E quando eu acabar, sorrirás de novo, aplaudindo baixinho para não chamar a atenção das pessoas que passam olhando para nós se perguntando que lingua estranha é essa, e dirás obrigada por tocar para mim e eu rirei do teu sotaque de quem não fala português há muito tempo. Ou talvez porque estás vestindo um daqueles colares que são tão teus e me lembram tanto de ti. E eu direi agora estou aqui, posso tocar para ti o tempo que quiseres. E te entregarei a rosa cor de rosa então esperando que tu repares na cor mas em vez repararás nas minhas mãos roxas e ficarás em dúvida sobre me abraçar ou segurar as minhas mãos entre as tuas até elas pararem de tremer, mas então eu te dou o abraço que tantas vezes desejamos nos dar, tentando dizer tudo aquilo que sempre quis dizer mas ninguém diz assim tão longe e não haverá mais dúvida e segurarás as minhas mãos entre as tuas dizendo tadinho você está gelado - e eu sorrindo de novo - até elas pararem de tremer. E é então a minha vez de segurar as tuas mãos entre as minhas beijá-las e dizer não sabes o quanto eu senti a tua falta e tu pensarás nas semanas sem canto enquanto eu penso nos meses à distância. E caminharemos então entre as flores dos jardins do campus ou talvez você rirá cada vez que eu escorrego nas calçadas geladas de inverno em frente à tua escola perguntando como foi teu dia ou talvez o que tu tens feito nesse tempo todo sem nos vermos. E fingirei que esqueci que não gostas e pedirei para pararmos em um café, e tu fingirás que gostas e aceitarás por que no fundo sabes que eu preciso segurar o café quente nas mãos roxas geladas de frio do inverno e então direi leva-me ao teu lugar favorito e andaremos até algum lugar desconhecido para mim mas maravilhosamente familiar por que será tão teu e me lembrará sempre tanto de ti. Ou talvez até a cama que tanto adoras e está tão perto quanto um passeio em bicicleta mas iremos de ônibus por que até o café já está roxo de frio do inverno. E então deitarás na cama colocando a cabeça no travesseiro e olhando para mim mas de olhos fechados e eu queria ter o violão emprestado do hippie que conheci na véspera para te ver sorrindo mais uma vez enquanto eu entono não sei bem certo se é só ilusão mas poerei então um disco de Debussy - e quase peço para tocares piano para mim mas já está tarde e os vizinhos reclamarão - por que eu sei como tu ficas ao escutar Debussy e só então depois de eu tirar o casaco perceberás o perfume que estou usando e comprei tanto tempo atrás. Espreguiçarás inocente e provacativa enquanto eu desvio o olhar até o poster do circo que me diz o que fazer e te beijo tentando não dizer nada do que quero dizer por que ninguém diz assim tão rápido. E então estragarei tudo dizendo te amo e voltarei sem saber o que dizer à cadeira para ficar assim tão longe que várias semanas adormecendo sem canto tornam-se mais perto, e poder assim nessa distância toda fingir que nada foi dito pois ninguém diz te amo assim tão longe. E então algum amigo teu aparecerá para me resgatar daquele silêncio tão vazio mas tão cheio de palavras não ditas, com teu olhar procurando o meu perdido em aquele poster de circo que não me diz mais nada, pois talvez estaremos ainda em algum café ainda segurando um café roxo de frio do inverno enquanto eu falo com ele com um sotaque que te faz rir e partiremos então em direções opostas por que ninguém diz te amo assim tão rápido assim tão longe. Ou talvez segurarás mais uma vez as minhas mãos entre as tuas e dirás de novo tadinho você ainda está gelado e voltaremos andando para aquele lugar que é teu favorito e me faz sorrir por que é tão teu e me lembra tanto de ti e tuas mãos dirão também aquilo que eu não devia ter dito assim tão rápido por que ninguém diz isso assim tão longe. E assim com as tuas mãos entre as minhas, tudo ficará tão perto e tão lento que parecerá que o mundo envelhece ao nosso redor por não ser capaz de dizer te amo assim tão rápido, sem importar quão longe.
Janeiro 20, 2011
Às vezes, sempre e nunca
Gritou seu próprio nome esperando ser ouvido do outro lado da porta de alumínio da casa número trinta e cinco. Do outro lado do muro, longe dessa rua desolada com escombros nas calçadas e arame farpado nas árvores, ouvia-se um molho de chaves tremendo na mão da velha empregada negra que abria a porta vagarosamente.
- Posso entrar?
- Pode sim. Você já me deu seu nome, quem sou eu agora... - o resto da frase se perdeu em balbucios enquanto ela se voltava para fechar a porta, com chave, novamente.
O pequeno jardim da casa número trinta e cinco era escuro e agradável, com folhas verdes e secas espalhadas pelo chão de baldosas amareladas e o carro batido e às vezes descartado, janelas fechadas, acumulando poeira na garagem. A velha empregada negra chamou-a a gritos e ele se sentou em uma das cadeiras do terraço enquanto as miúdas cadelas começavam a latir. Reparou na comida espalhada pelo chão, e sentiu-se um invasor com essa visita não anunciada. A negra sentou-se no sofá à sua frente, queixando-se do número de chaves que agora ela tinha que guardar. Colocou uma bolsa do seu lado, no lugar que antes frequentemente era ocupado por três carteiras de cigarro: a quase vazia, dela; a quase cheia, dele; e uma terceira cheia de cinzas e filtros amassados. A presença dele nesse lugar parecia multiplicar-se com cada um desses pequenos detalhes, sentia ter vivido metade de uma vida nesse terraço meio escuro de folhas secas e verdes espalhadas pelo chão amarelado, tentando hipnotizar a cadela de cabelos aparados cada vez que ela ia procurar uma nova carteira de cigarros, um cinzeiro, ou um copo para beber o vinho barato que ambos tinham acabado de comprar. Ao mesmo tempo, sentia ter estado ausente nesse terraço por metade de uma vida. E agora ele estava ai, sem um convite, em uma visita não anunciada.
- ... monte de chaves, que nem São Pedro. É ele que cuida das chaves, né?
- Dos portões do céu, é.
Quando ela finalmente apareceu, ele não teve coragem de se levantar para abraçá-la, como era costume, segurando-a forte contra si, sentindo o cheiro dos seus cabelos e o calor da sua pele, adivinhando o sorriso dela contra o peito dele. Após um instante que parecera não ter acontecido, ela sentou-se no sofá à frente dele. Nunca, nesse terraço, tivera que contemplá-la a essa distância toda.
- Soube que estavas doente ontem, fiquei preocupado contigo e vim te visitar. Também trouxe chocolates, foram os melhores que encontrei, queria ter comprado teus favoritos, mas nunca perguntei quais eram. - pensou ele. Porém, só perguntou se ela estava melhor, o que ela teve, e estendeu o braço para entregar a caixa de chocolates.
Quando ele falou que iria embora do país- não viajar, embora -, ela, sem mais, perguntou sobre o trabalho dele. Fizeram uma pausa para se olharem intensamente e, após um instante que parecera eterno, ela sorriu nervosa e desviou o olhar.
- Penso em ti às vezes. Sinto saudades de ti sempre. Queria nunca ter feito o que eu fiz. - pensou ele.
Então aconteceu, barulho de carro, batida de porta, batida na porta. O outro chegou.
- E aí, cara.
- Beleza?
- ...
- ...
- Então, vou indo. Falou, cara.
- Falou.
Ela o acompanhou até a porta de alumínio, saltitante por entre as folhas verdes e secas espalhadas pelo chão amarelado e gretado do jardim escuro da casa número trinta e cinco. Ele saiu a essa rua deserta, com escombros nas calçadas e arame farpado nas árvores e disse chau, depois a gente conversa.
- Tenho medo de ir embora e nunca mais te ver - tentou, tentou, tentou. Mas, mais uma vez, não disse nada. E abraçou-a com o mesmo jeito que não era nada parecido àquele jeito com que costumava abraçá-la.
Nunca, nessa porta, nesse degrau, nessa fachada da casa número trinta e cinco, tivera que se despedir sem um abraço apertado, sem um beijo. Nunca, nessa rua deserta com escombros nas calçadas e arame farpado nas árvores, acendera um cigarro enquanto andava, sem esperar um táxi ou sem ir até o supermercado comprar um vinho barato. Estava fugindo. E fugiu, a passos lentos, esquivando escombros e arames farpados, dando um boa noite com gosto de adeus para o vigia, virando a esquina da avenida, olhando os desenhos da calçada, escutando buzinas misturar-se à sua música favorita tocando em um carro estacionado, sempre andando. E andou até o bar decadente daquela rua do centro, com mesas e cachorros trepando na calçada, e pediu uma bebida.
- Os chocolates. Pelo menos em cada chocolate ela vai lembrar de mim.- pensou.
E não pensou mais nada.
- Posso entrar?
- Pode sim. Você já me deu seu nome, quem sou eu agora... - o resto da frase se perdeu em balbucios enquanto ela se voltava para fechar a porta, com chave, novamente.
O pequeno jardim da casa número trinta e cinco era escuro e agradável, com folhas verdes e secas espalhadas pelo chão de baldosas amareladas e o carro batido e às vezes descartado, janelas fechadas, acumulando poeira na garagem. A velha empregada negra chamou-a a gritos e ele se sentou em uma das cadeiras do terraço enquanto as miúdas cadelas começavam a latir. Reparou na comida espalhada pelo chão, e sentiu-se um invasor com essa visita não anunciada. A negra sentou-se no sofá à sua frente, queixando-se do número de chaves que agora ela tinha que guardar. Colocou uma bolsa do seu lado, no lugar que antes frequentemente era ocupado por três carteiras de cigarro: a quase vazia, dela; a quase cheia, dele; e uma terceira cheia de cinzas e filtros amassados. A presença dele nesse lugar parecia multiplicar-se com cada um desses pequenos detalhes, sentia ter vivido metade de uma vida nesse terraço meio escuro de folhas secas e verdes espalhadas pelo chão amarelado, tentando hipnotizar a cadela de cabelos aparados cada vez que ela ia procurar uma nova carteira de cigarros, um cinzeiro, ou um copo para beber o vinho barato que ambos tinham acabado de comprar. Ao mesmo tempo, sentia ter estado ausente nesse terraço por metade de uma vida. E agora ele estava ai, sem um convite, em uma visita não anunciada.
- ... monte de chaves, que nem São Pedro. É ele que cuida das chaves, né?
- Dos portões do céu, é.
Quando ela finalmente apareceu, ele não teve coragem de se levantar para abraçá-la, como era costume, segurando-a forte contra si, sentindo o cheiro dos seus cabelos e o calor da sua pele, adivinhando o sorriso dela contra o peito dele. Após um instante que parecera não ter acontecido, ela sentou-se no sofá à frente dele. Nunca, nesse terraço, tivera que contemplá-la a essa distância toda.
- Soube que estavas doente ontem, fiquei preocupado contigo e vim te visitar. Também trouxe chocolates, foram os melhores que encontrei, queria ter comprado teus favoritos, mas nunca perguntei quais eram. - pensou ele. Porém, só perguntou se ela estava melhor, o que ela teve, e estendeu o braço para entregar a caixa de chocolates.
Quando ele falou que iria embora do país- não viajar, embora -, ela, sem mais, perguntou sobre o trabalho dele. Fizeram uma pausa para se olharem intensamente e, após um instante que parecera eterno, ela sorriu nervosa e desviou o olhar.
- Penso em ti às vezes. Sinto saudades de ti sempre. Queria nunca ter feito o que eu fiz. - pensou ele.
Então aconteceu, barulho de carro, batida de porta, batida na porta. O outro chegou.
- E aí, cara.
- Beleza?
- ...
- ...
- Então, vou indo. Falou, cara.
- Falou.
Ela o acompanhou até a porta de alumínio, saltitante por entre as folhas verdes e secas espalhadas pelo chão amarelado e gretado do jardim escuro da casa número trinta e cinco. Ele saiu a essa rua deserta, com escombros nas calçadas e arame farpado nas árvores e disse chau, depois a gente conversa.
- Tenho medo de ir embora e nunca mais te ver - tentou, tentou, tentou. Mas, mais uma vez, não disse nada. E abraçou-a com o mesmo jeito que não era nada parecido àquele jeito com que costumava abraçá-la.
Nunca, nessa porta, nesse degrau, nessa fachada da casa número trinta e cinco, tivera que se despedir sem um abraço apertado, sem um beijo. Nunca, nessa rua deserta com escombros nas calçadas e arame farpado nas árvores, acendera um cigarro enquanto andava, sem esperar um táxi ou sem ir até o supermercado comprar um vinho barato. Estava fugindo. E fugiu, a passos lentos, esquivando escombros e arames farpados, dando um boa noite com gosto de adeus para o vigia, virando a esquina da avenida, olhando os desenhos da calçada, escutando buzinas misturar-se à sua música favorita tocando em um carro estacionado, sempre andando. E andou até o bar decadente daquela rua do centro, com mesas e cachorros trepando na calçada, e pediu uma bebida.
- Os chocolates. Pelo menos em cada chocolate ela vai lembrar de mim.- pensou.
E não pensou mais nada.
Dezembro 10, 2010
You know what?
To many.
You know what?
I think we were actually made for each other.
Just not to be together.
And I hope it doesn't change.
Dezembro 08, 2010
You shouldn't listen to me
A morte não era uma pergunta para ele. Era uma resposta. Mesmo sem saber quais as palavras que a compunham. Era a resposta que ele procurara a vida toda. Morte. Estar em um lugar melhor. Estar lá em cima cuidando de nós. Ficar em paz. Todas mentiras que nós contamos a nós mesmos. Não era um escape, era a volta para casa. Morrer a cada instante. Todos nós fazemos, mas poucos somos cientes. Mas ele; ele podia senti-lo. Em cada enxaqueca, em cada náusea no meio da noite. Cada vez que o sangue molhava seu cigarro. "Estou perto. Finalmente". Ele pensava. Não pensava ser fraco demais para as provas que a vida lhe punha. Só não eram indicadas para ele. Imagine perguntar sobre existencialismo para uma criança de 8 meses. Ela não sofreu o suficiente para conseguir pensar numa resposta. Mas ele; ele sofrera, e sentia a cada minuto a vida fugir do seu corpo como uma ilusão. Entre hospitais, médicos indiferentes e enfermeiras preocupadas demais; sua vida escorria por entre os dedos de quem poderia salvá-lo mas não sabe como, e os de quem simplesmente queria salvar todo mundo. E agora as nuvens cinzas não deixam o sol nascer belo. O vento, cansado, não acalma seu corpo. Só a luz, moribunda, consola sua vida que se apaga. E, como um cigarro na calçada, espera sua vida se extinguir, sem ser notada.
Novembro 28, 2010
500 days (VII)
Sem esforço, ignorou-a; mas percebeu que seu acompanhante olhava para ele. Dirigiu-se até uma mesa vazia que parecia aguardâ-lo. Sentou-se e, tirando uma caneta do bolso, fez uma pausa para observar o mar e a lua, antes de começar a rabiscar silenciosamente em um guardanapo. Vozes e risos flutuavam ao seu redor. Concentrado, não percebia o tempo passar. Levantou os olhos. Uma gaivota voava em torno à lua. "A lua gira no céu e canta", escreveu. Longe, a usual fileira de navios assemelhava uma cidade perdida no meio do mar. Súbitamente, um copo foi colocado à sua frente.
- Seu whisky, senhor - anunciou uma voz feminina, inconfundível.
- Pode levar de volta. Não pedi nada - respondeu ele.
Levantou a vista. Ela sorria. Ele sorriu também, cínicamente, e disse.
- Júlia, desculpa. Pensei que fosse outra pessoa.
- Você está mentindo - ela riu.
Ele parou um instante para observá-la. Conservava aquele belo ar de abandono, como um prêmio que ninguém reclamara.
- Você ainda sabe quando eu estou blefando. Impressionante. Vais sentar comigo?
- Só se você quiser a minha companhia.
- Bom, nesse caso... - disse ele, encarando-a impassível.
Ela pareceu hesitar por um instante, mas, finalmente, sorriu e sentou-se.
- O que houve com teu acompanhante? - perguntou ele, sem olhar em direção à mesa que aquele ocupara.
- Ah, bom - ela desviou o olhar-. Ele teve que ir embora.
- Então é a ele que devo a tua companhia essa noite. Que considerado - ela sorriu. Ele virou-se e chamou um garçom-. Brindemos por isso.
Um homem jovem de cabelo engominado e uniforme impecável se apresentou.
- Traga uma garrafa de espumante.
- Sim senhor, alguma preferência?
- A melhor da casa.
- E para a senhorita? - perguntou, inclinándo-se ligeiramente para a frente, com um sorriso exagerado que parecia ter sido ensaiado no espelho.
- Nada, obrigado - respondeu Júlia gentilmente.
- É só isso, Don Juan, obrigado.
O garçom pareceu perplexo.
- Meu nome é José.
Frank e Julia sorriram, divertidos.
- Bom saber - disse Frank.
A expressão confusa persistia no rosto do garçom enquanto este se dirigia ao bar.
- Você não existe - disse Julia, ainda sorrindo.
Ela viu o guardanapo na mesa, curiosa. Com um movimento grácil, pegou-o e começou a ler. Uma risada diferente chamou sua atenção. Na beira do mar, uma mulher girava sobre si com os braços abertos, enquanto um homem a observava, sentado na areia, a uns metros de distância.
- Déjà vù... - disse ele.
Ela não o ouvira.
- "A lua gira no céu e canta", gostei dessa frase.
- É, eu também não gostei de nenhuma das outras - disse ele, com um sorriso apertado.
Ela inclinou a cabeça para um lado, com expressão impaciente.
- Não é isso que eu quis dizer... "they haunt and taunt as they dance, still / as they crawl and haul their sorrows through / it never ends, it never ends"
Ele bebeu seu whisky de um só gole.
- Mas é a verdade. A minha inspiração nunca voltou realmente depois de ti.
O olhar dela pareceu perder um pouco do seu brilho. Forçou um sorriso fingido e disse
- Isso foi há tanto tempo... Eu não sou esse monstro que estás pensando.
Ele riu.
- Tu nunca foste nada do que eu pensei que fosses.
Ela baixou os olhos. Ele ainda sorria. O garçom a resgatou.
- Seu pedido - disse, desconfiado.
Depositou as taças na mesa, serviu ambos e foi embora.
- Vamos brindar - disse Frank-. Às noites interessantes de encontros inesperados.
- Aos brindes falsos - disse ela, aparentemente recuperada e indiferente.
- Aos sonhos frustrados.
- Às manhãs frias e sem poesia.
- Às noites quentes e sem alegrias.
- Aos beijos sem amor.
- Às mentiras sem dor.
- Às nossas vidas sem nós - ela sorriu.
- Saúde.
Ambos beberam, com os olhos fixos, um no outro, enquanto bebiam. Cada um tentava descifrar o outro. Adivinhar o outro.
- Adoro espumante - disse ela.
- Sempre preferi whiskey.
- Mas hoje pediste espumante. Por quê?
- Por que eu sei que adoras espumante. E espumante é mais adecuado para comemorações.
- Que estamos comemorando?
- Tua presença, é lógico. E... - olhou para o relógio - sim, ainda é meu aniversário, então...
- Eu tenho que ir.
Ele a observou, familiarmente surpreso.
- Boa noite.
- Até a próxima.
Observou-a abandonando o lugar, andando com cadência por entre as mesas. Ao chegar a rua, percebeu que o acompanhante voltara. Eles começaram a discutir.
- Seu whisky, senhor - anunciou uma voz feminina, inconfundível.
- Pode levar de volta. Não pedi nada - respondeu ele.
Levantou a vista. Ela sorria. Ele sorriu também, cínicamente, e disse.
- Júlia, desculpa. Pensei que fosse outra pessoa.
- Você está mentindo - ela riu.
Ele parou um instante para observá-la. Conservava aquele belo ar de abandono, como um prêmio que ninguém reclamara.
- Você ainda sabe quando eu estou blefando. Impressionante. Vais sentar comigo?
- Só se você quiser a minha companhia.
- Bom, nesse caso... - disse ele, encarando-a impassível.
Ela pareceu hesitar por um instante, mas, finalmente, sorriu e sentou-se.
- O que houve com teu acompanhante? - perguntou ele, sem olhar em direção à mesa que aquele ocupara.
- Ah, bom - ela desviou o olhar-. Ele teve que ir embora.
- Então é a ele que devo a tua companhia essa noite. Que considerado - ela sorriu. Ele virou-se e chamou um garçom-. Brindemos por isso.
Um homem jovem de cabelo engominado e uniforme impecável se apresentou.
- Traga uma garrafa de espumante.
- Sim senhor, alguma preferência?
- A melhor da casa.
- E para a senhorita? - perguntou, inclinándo-se ligeiramente para a frente, com um sorriso exagerado que parecia ter sido ensaiado no espelho.
- Nada, obrigado - respondeu Júlia gentilmente.
- É só isso, Don Juan, obrigado.
O garçom pareceu perplexo.
- Meu nome é José.
Frank e Julia sorriram, divertidos.
- Bom saber - disse Frank.
A expressão confusa persistia no rosto do garçom enquanto este se dirigia ao bar.
- Você não existe - disse Julia, ainda sorrindo.
Ela viu o guardanapo na mesa, curiosa. Com um movimento grácil, pegou-o e começou a ler. Uma risada diferente chamou sua atenção. Na beira do mar, uma mulher girava sobre si com os braços abertos, enquanto um homem a observava, sentado na areia, a uns metros de distância.
- Déjà vù... - disse ele.
Ela não o ouvira.
- "A lua gira no céu e canta", gostei dessa frase.
- É, eu também não gostei de nenhuma das outras - disse ele, com um sorriso apertado.
Ela inclinou a cabeça para um lado, com expressão impaciente.
- Não é isso que eu quis dizer... "they haunt and taunt as they dance, still / as they crawl and haul their sorrows through / it never ends, it never ends"
Ele bebeu seu whisky de um só gole.
- Mas é a verdade. A minha inspiração nunca voltou realmente depois de ti.
O olhar dela pareceu perder um pouco do seu brilho. Forçou um sorriso fingido e disse
- Isso foi há tanto tempo... Eu não sou esse monstro que estás pensando.
Ele riu.
- Tu nunca foste nada do que eu pensei que fosses.
Ela baixou os olhos. Ele ainda sorria. O garçom a resgatou.
- Seu pedido - disse, desconfiado.
Depositou as taças na mesa, serviu ambos e foi embora.
- Vamos brindar - disse Frank-. Às noites interessantes de encontros inesperados.
- Aos brindes falsos - disse ela, aparentemente recuperada e indiferente.
- Aos sonhos frustrados.
- Às manhãs frias e sem poesia.
- Às noites quentes e sem alegrias.
- Aos beijos sem amor.
- Às mentiras sem dor.
- Às nossas vidas sem nós - ela sorriu.
- Saúde.
Ambos beberam, com os olhos fixos, um no outro, enquanto bebiam. Cada um tentava descifrar o outro. Adivinhar o outro.
- Adoro espumante - disse ela.
- Sempre preferi whiskey.
- Mas hoje pediste espumante. Por quê?
- Por que eu sei que adoras espumante. E espumante é mais adecuado para comemorações.
- Que estamos comemorando?
- Tua presença, é lógico. E... - olhou para o relógio - sim, ainda é meu aniversário, então...
- Eu tenho que ir.
Ele a observou, familiarmente surpreso.
- Boa noite.
- Até a próxima.
Observou-a abandonando o lugar, andando com cadência por entre as mesas. Ao chegar a rua, percebeu que o acompanhante voltara. Eles começaram a discutir.
Outubro 21, 2010
Why and how
"-tu és muito observador, tenho medo de gente muito observadora...existem duas pessoas que parecem me conhecer até mais do que eu mesma, tu és uma delas..."
"- foi contigo que aprendi a por cerveja no copo
- e a bater a cinza do cigarro"
"- a gnt se conheceu dia 2 de junho, não foi?
- faz tao pouco tempo? pra mim parece uma eternidade"
"-tomei banho de mar, só lembrei de ti..."
"-fui la no prédio. lembrei de ti.."
"-acha a legenda de Sex and the City pra mim?
-qual é a palavra mágica?
-por favorzinho?!"
"ela mostrou-lhe uma foto sua
- gamei. quem é?
- hasuhasuhas. vovó"
"- Te achei bem frio no venetto, what happened?
- é? eu pensei o mesmo de ti
- Eu fui la te dar um abraço e n senti sinceridade :/
- eu pensei a mesma coisa"
"-Um dia eu sento contigo e conto tudo"
"- ...dependência baixa
- meu orgulho =*"
"malditas tequileiras. aquelas mulheres que sacodem nossa cabeça"
"- não sei de onde tiraste tal história.
- foi meio q um desabafo
- interessantíssimo"
"- ele é psicopata, esse sim é. asuhush
- eu não sou mais?
- nao. essas ultimas semanas tu provaste que eu tava errada"
"- ei, descreve meu beijo?
- haha, pra quê?
- nao sei, curiosidade
- hmmm. mas não to lembrando, vou precisar que refresque a minha memória"
"no nick dela: {não}
- sim
- sim what? ah sim. entendi. sim pra ti, sim"
"- Ficou muito boa tua síntese. meu orgulho"
"- eu não gosto de camarão... por isso q eu falo q sou alérgico. mas não fala p ngm q é mentira =]
- tudo bem honey. it's our little secret"
"- abririas um restaurant?
- yep. pensas em te unir a mim?"
"- vou tomar banho
- q dia vc vai se dignar a me dar um abraço? aquele último não foi mto bom não
- vou pensar no teu caso :P
- durante o banho?"
"- nhami. sorvete
- mas arroz engorda né"
"uma das vezes em que ele comprou flores para ela:
- eu te vi hoje =)
- where?
- no planta, conversando com o skinhead"
"- quer um pedaço de neve?
- quero. você traz pra mim?"
"- ei, tres meses que a gente se conhece.
- é... (F) feliz aniversário de 3 meses (F)"
"- tá curtindo?
- Muito, ja quero morar no frio, let's go?"
"- Take care. You're gonna fall in love
- me? why do you think so?
- German girl"
"- fiquei te esperando aqui p te dar as boas vindas
- tu sempre estás aqui pra mim. brigada"
"- eu pensei que era pensando em alguem
- em quem?
- alguma outra musa...
- não, vc é a única"
"- gosto mto de ti
- Por que a cara triste? Gostar de mim é ruim?
- às vezes"
"- mas resolvi parar e tentar conviver. tu és uma das 3 pessoas que sabem disso."
"- não pára, aprende a controlar
- vou tentar. me ensina?"
"- vou dormir. me deixas ir?"
"- como estão os planos de se mudar pro sul?
- vontade no corpo todo. tu irias comigo escondido"
"- dá p criar um cachorrinho?
- da, um pequeno. que fique deitado entre a gente às vezes"
"- desculpa. mesmo. do fundo do coraçao
- ..."
"- ontem, de ontem pra antes. as coisas mudam."
"- e tu falaste o que sobre a situaçao?
- que já falei com a tua mãe. mas ela não quer te vender de jeito nenhum"
"- agora o que eu nao preciso é de alguem pra ficar me julgando uma altura dessas da vida.
- achas que eu te julgo?"
"- nunca...
- nunca? nunca oq?
- nunca me fez falsas promessas"
"- que vais fazer?
- vou dar uma volta, nessa noite perfeita que promete
- HAHAHAHAHAHA. bobo. TO RINDO. ALTAO"
"- não bebe hoje (:
- pq não?
- Qual a necessidade?"
"- ei
- oi
- ei. ei. (L) :*"
"- sonhei contigo. te via passar na rua
- eu também sonhei contigo...
- sério? oq?
- sonhei que tu me sequestravas"
"- ...me chamando pra fazer fumaça. eu disse que tinha prometido pra ti que nao ia fumar"
"- de especial pra quem?
- alguns homens...
- hmmm, ela tem bom papo tb
- a intenção é me fazer ciume?"
"- Eu pensei em ir na tua casa falar ctg, tu ias me expulsar?
- falar oq, meu? não há nada p falar
- Eu queria que tu soubesses que eu nao sou esse monstro que estas pensando. Queria que tu olhasses nos meus olhos e visses isso."
"- Ta certo... Mas to aqui sempre, idiota e imperfeita, mas sempre."
"- se eu nao tivesse que trabalhar hoje eu ia ai
- hmmm. não tem pressa, suponho
- Pressa eu tenho. Me falta tempo"
"- eu quis dizer q não muda muita coisa de um dia pro outro
- ou muda... vai saber"
"- Pra quem tem pressa...
- Eu nao quero conversar contigo na frente de todo mundo."
"- ei, se a gente for beber no meu antigo ap amanha tu vais?"
"- eu quero viajar
- eu acho q vou. mas ainda não é confirmado.
- pra onde?
- rio
- fazer?
- trabalhar, morar, e tudo
- wow"
"- YES
- yes uat?
- yes to your no
- ..."
"- foi contigo que aprendi a por cerveja no copo
- e a bater a cinza do cigarro"
"- a gnt se conheceu dia 2 de junho, não foi?
- faz tao pouco tempo? pra mim parece uma eternidade"
"-tomei banho de mar, só lembrei de ti..."
"-fui la no prédio. lembrei de ti.."
"-acha a legenda de Sex and the City pra mim?
-qual é a palavra mágica?
-por favorzinho?!"
"ela mostrou-lhe uma foto sua
- gamei. quem é?
- hasuhasuhas. vovó"
"- Te achei bem frio no venetto, what happened?
- é? eu pensei o mesmo de ti
- Eu fui la te dar um abraço e n senti sinceridade :/
- eu pensei a mesma coisa"
"-Um dia eu sento contigo e conto tudo"
"- ...dependência baixa
- meu orgulho =*"
"malditas tequileiras. aquelas mulheres que sacodem nossa cabeça"
"- não sei de onde tiraste tal história.
- foi meio q um desabafo
- interessantíssimo"
"- ele é psicopata, esse sim é. asuhush
- eu não sou mais?
- nao. essas ultimas semanas tu provaste que eu tava errada"
"- ei, descreve meu beijo?
- haha, pra quê?
- nao sei, curiosidade
- hmmm. mas não to lembrando, vou precisar que refresque a minha memória"
"no nick dela: {não}
- sim
- sim what? ah sim. entendi. sim pra ti, sim"
"- Ficou muito boa tua síntese. meu orgulho"
"- eu não gosto de camarão... por isso q eu falo q sou alérgico. mas não fala p ngm q é mentira =]
- tudo bem honey. it's our little secret"
"- abririas um restaurant?
- yep. pensas em te unir a mim?"
"- vou tomar banho
- q dia vc vai se dignar a me dar um abraço? aquele último não foi mto bom não
- vou pensar no teu caso :P
- durante o banho?"
"- nhami. sorvete
- mas arroz engorda né"
"uma das vezes em que ele comprou flores para ela:
- eu te vi hoje =)
- where?
- no planta, conversando com o skinhead"
"- quer um pedaço de neve?
- quero. você traz pra mim?"
"- ei, tres meses que a gente se conhece.
- é... (F) feliz aniversário de 3 meses (F)"
"- tá curtindo?
- Muito, ja quero morar no frio, let's go?"
"- Take care. You're gonna fall in love
- me? why do you think so?
- German girl"
"- fiquei te esperando aqui p te dar as boas vindas
- tu sempre estás aqui pra mim. brigada"
"- eu pensei que era pensando em alguem
- em quem?
- alguma outra musa...
- não, vc é a única"
"- gosto mto de ti
- Por que a cara triste? Gostar de mim é ruim?
- às vezes"
"- mas resolvi parar e tentar conviver. tu és uma das 3 pessoas que sabem disso."
"- não pára, aprende a controlar
- vou tentar. me ensina?"
"- vou dormir. me deixas ir?"
"- como estão os planos de se mudar pro sul?
- vontade no corpo todo. tu irias comigo escondido"
"- dá p criar um cachorrinho?
- da, um pequeno. que fique deitado entre a gente às vezes"
"- desculpa. mesmo. do fundo do coraçao
- ..."
"- ontem, de ontem pra antes. as coisas mudam."
"- e tu falaste o que sobre a situaçao?
- que já falei com a tua mãe. mas ela não quer te vender de jeito nenhum"
"- agora o que eu nao preciso é de alguem pra ficar me julgando uma altura dessas da vida.
- achas que eu te julgo?"
"- nunca...
- nunca? nunca oq?
- nunca me fez falsas promessas"
"- que vais fazer?
- vou dar uma volta, nessa noite perfeita que promete
- HAHAHAHAHAHA. bobo. TO RINDO. ALTAO"
"- não bebe hoje (:
- pq não?
- Qual a necessidade?"
"- ei
- oi
- ei. ei. (L) :*"
"- sonhei contigo. te via passar na rua
- eu também sonhei contigo...
- sério? oq?
- sonhei que tu me sequestravas"
"- ...me chamando pra fazer fumaça. eu disse que tinha prometido pra ti que nao ia fumar"
"- de especial pra quem?
- alguns homens...
- hmmm, ela tem bom papo tb
- a intenção é me fazer ciume?"
"- Eu pensei em ir na tua casa falar ctg, tu ias me expulsar?
- falar oq, meu? não há nada p falar
- Eu queria que tu soubesses que eu nao sou esse monstro que estas pensando. Queria que tu olhasses nos meus olhos e visses isso."
"- Ta certo... Mas to aqui sempre, idiota e imperfeita, mas sempre."
"- se eu nao tivesse que trabalhar hoje eu ia ai
- hmmm. não tem pressa, suponho
- Pressa eu tenho. Me falta tempo"
"- eu quis dizer q não muda muita coisa de um dia pro outro
- ou muda... vai saber"
"- Pra quem tem pressa...
- Eu nao quero conversar contigo na frente de todo mundo."
"- ei, se a gente for beber no meu antigo ap amanha tu vais?"
"- eu quero viajar
- eu acho q vou. mas ainda não é confirmado.
- pra onde?
- rio
- fazer?
- trabalhar, morar, e tudo
- wow"
"- YES
- yes uat?
- yes to your no
- ..."
Outubro 10, 2010
500 days (VI)
Demorou alguns segundos antes de aceitar que aquela mulher realmente dizia ser um anjo. Com um sorriso que mostrava o quão absurdo era isso, virou as costas e começou a andar.
- Um anjo... Cada coisa -pensou-.
Acendeu um cigarro e continuou andando. Um pensamento atiçou sua curiosidade.
- Espera ai, como você sabe quem eu sou? - disse em voz alta, com um tom ligeira e propositalmente amedrontador, enquanto se voltava. Ela sumira. Aguçou a vista e procurou, em vão, nas proximidades. A rua estava deserta. Confuso, retomou seu caminho, pensativo.
- Calmantes e whisky não fazem um bom par - anotou mentalmente.
Andou mais alguns quarteirões, preocupado com a idéia de não poder confiar na sua própria mente. Era o único que lhe restava. O forte miado de um gato o tirou dos seus pensamentos. No alto de algumas caixas empilhadas na calçada, um gato preto o observava. Ele sorriu. Esse tipo de coincidências sempre o divertira. Se dirigiu, então, até o táxi que aguardava na esquina. O motorista, do lado de fora, fumava um cigarro. Ele estava ouvindo blues; Robert Johnson.
- Primeiro um gato negro e agora um guitarrista que vendeu a alma ao diabo! Essa noite promete! - declarou sorridente.
O motorista respondeu com um sorriso, e perguntou:
- Para onde?
- Calma, termina teu cigarro e deixa terminar o meu.
- Pode fumar no carro, senhor.
- Excelente. Essa noite fica cada vez melhor.
Ambos entraram no carro.
- Para onde? - inquiriu mais uma vez o motorista.
- Vamos dar umas voltas na praia. Depois eu decido.
O motorista olhou para Frank como se este estivesse maluco. Porém, aceitou.
"...Early one morning the blues came falling down
All locked up in jail, I'm prison bound..."
Abandonaram a rua deserta. Noctâmbulos vagabundavam pelas ruas escuras, alguns solitários, outros mal acompanhados. Em uma esquina, um sujeito de aparência estranha vendia remédios antimonotonia.
"...Thinking of my baby and my happy home..."
Na próxima esquina, do lado de uma viatura estacionada, um policial conversava alegremente com uma prostituta.
- Olha só isso - disse Frank ao motorista -. Será que policial tem desconto?
Ele respondeu gargalhando:
- Cem por cento de desconto. É a esposa dele.
- Você o conhece? - perguntou Frank cautelosamente.
- Não ele. Mas conheço ela.
Ambos riram.
- Ele policial. Ela puta... Aposto como o filho deles vai ser político.
Mais risadas.
- Não me surpreenderia.
Deixaram o casal para trás, e, alguns metros à frente, pararam em um sinal. Frank olhava, absorto, a luz vermelha.
- Você acredita em anjos? - perguntou ao motorista, que olhou para ele com surpresa.
Após poucos segundos, ele respondeu.
- Quem acredita em anjos acredita em deus.
- Isso é um não?
- Exatamente - respondeu o motorista, fazendo uma curva.
Frank observou o casal desaparecendo no retrovisor. Um brilho prateado chamou sua atenção.
- É pouco comum um atéu ter um crucifixo no seu carro.
O motorista passou a marcha sem olhar para Frank ou o crucifixo.
- É parte de uma coleção.
- Coleção de crucifixos? Claro, todos os atéus fazem isso - retrucou Frank, com um sorriso sarcástico.
- Coleção de coisas bizarras. Ganhei esse crucifixo em uma partida de poker. O homem que perdeu disse que o crucifixo o protegia do demônio.
- Não há nada tão bizarro assim nessa história - observou Frank.
Dessa vez, o motorista o olhou nos olhos por um instante. Ele sorria. Esperava essa reação.
- Esse homem morreu uma hora depois. A causa da morte? Desconhecida.
- ... isso é bizzarro - Frank levantou as sobrancelhas, surpreso -.
O motorista riu. Apontando para a esquerda, disse:
- Prédio azul, quinto andar. Foi lá que "o demônio" matou aquele homem.
O prédio aparecia avelhentado, mas ainda mantinha o ar nobre que tivera em tempos melhores. Frank sentia um grande apelo por esse tipo de decadência. Em uma janela do sexto andar, uma velha mulher, de aparência perturbadora, fumava; parecia uma ave de rapina à espreita de novas vitimas. Como lendo sua mente, o motorista continuou:
- A velha da janela já enterrou 4 maridos e 5 filhos. Fica o dia inteiro fumando na janela. As crianças do bairro dizem que ela não sai de lá nem para comer. Ninguém sabe ao certo quantos anos ela tem, pois não fala com ninguém. No porta-luvas tem uma foto dela e o quarto marido, morto, sentado na cama do lado dela.
- Que personagem interessante - pensou Frank -.Como você conseguiu a foto então, se ela não fala com ninguém? - respondeu.
- Você é policial? - o tom da pergunta era defensivo.
- Quê mais você tem no carro? - respondeu Frank, sem se importar.
O motorista o observou, desconfiado, por alguns instantes.
- Uma pedra do túmulo de um cantor - respondeu finalmente -. Mas ela não está assombrada como o vendedor garantiu. Só a conservo porque paguei caro por ela. E mais nada.
- Não é uma coleção muito grande.
- Não é um carro muito grande. O resto da coleção fica em casa.
- Que classe de coisas?
- Uma cruz de madeira que achei flutuando na beira-mar. Um côco que matou um infeliz que não acreditava na gravidade. Coisas assim.
Frank sorria. Gostava desse cara. Alguns minutos depois, chegaram até a praia. Ele decidiu ficar no bar de sempre.
Ao chegar, desceu do táxi, pagou o motorista e despediu-se. Acendeu um cigarro e observou as estrelas. Ao terminar, entrou no bar e se dirigiu até uma mesa com vista ao mar. Quando tinha andado dois passos em direção à mesa, percebeu um perfume no ar. Buscou ao seu redor, e então a viu. Ela não estava só.
- Um anjo... Cada coisa -pensou-.
Acendeu um cigarro e continuou andando. Um pensamento atiçou sua curiosidade.
- Espera ai, como você sabe quem eu sou? - disse em voz alta, com um tom ligeira e propositalmente amedrontador, enquanto se voltava. Ela sumira. Aguçou a vista e procurou, em vão, nas proximidades. A rua estava deserta. Confuso, retomou seu caminho, pensativo.
- Calmantes e whisky não fazem um bom par - anotou mentalmente.
Andou mais alguns quarteirões, preocupado com a idéia de não poder confiar na sua própria mente. Era o único que lhe restava. O forte miado de um gato o tirou dos seus pensamentos. No alto de algumas caixas empilhadas na calçada, um gato preto o observava. Ele sorriu. Esse tipo de coincidências sempre o divertira. Se dirigiu, então, até o táxi que aguardava na esquina. O motorista, do lado de fora, fumava um cigarro. Ele estava ouvindo blues; Robert Johnson.
- Primeiro um gato negro e agora um guitarrista que vendeu a alma ao diabo! Essa noite promete! - declarou sorridente.
O motorista respondeu com um sorriso, e perguntou:
- Para onde?
- Calma, termina teu cigarro e deixa terminar o meu.
- Pode fumar no carro, senhor.
- Excelente. Essa noite fica cada vez melhor.
Ambos entraram no carro.
- Para onde? - inquiriu mais uma vez o motorista.
- Vamos dar umas voltas na praia. Depois eu decido.
O motorista olhou para Frank como se este estivesse maluco. Porém, aceitou.
"...Early one morning the blues came falling down
All locked up in jail, I'm prison bound..."
Abandonaram a rua deserta. Noctâmbulos vagabundavam pelas ruas escuras, alguns solitários, outros mal acompanhados. Em uma esquina, um sujeito de aparência estranha vendia remédios antimonotonia.
"...Thinking of my baby and my happy home..."
Na próxima esquina, do lado de uma viatura estacionada, um policial conversava alegremente com uma prostituta.
- Olha só isso - disse Frank ao motorista -. Será que policial tem desconto?
Ele respondeu gargalhando:
- Cem por cento de desconto. É a esposa dele.
- Você o conhece? - perguntou Frank cautelosamente.
- Não ele. Mas conheço ela.
Ambos riram.
- Ele policial. Ela puta... Aposto como o filho deles vai ser político.
Mais risadas.
- Não me surpreenderia.
Deixaram o casal para trás, e, alguns metros à frente, pararam em um sinal. Frank olhava, absorto, a luz vermelha.
- Você acredita em anjos? - perguntou ao motorista, que olhou para ele com surpresa.
Após poucos segundos, ele respondeu.
- Quem acredita em anjos acredita em deus.
- Isso é um não?
- Exatamente - respondeu o motorista, fazendo uma curva.
Frank observou o casal desaparecendo no retrovisor. Um brilho prateado chamou sua atenção.
- É pouco comum um atéu ter um crucifixo no seu carro.
O motorista passou a marcha sem olhar para Frank ou o crucifixo.
- É parte de uma coleção.
- Coleção de crucifixos? Claro, todos os atéus fazem isso - retrucou Frank, com um sorriso sarcástico.
- Coleção de coisas bizarras. Ganhei esse crucifixo em uma partida de poker. O homem que perdeu disse que o crucifixo o protegia do demônio.
- Não há nada tão bizarro assim nessa história - observou Frank.
Dessa vez, o motorista o olhou nos olhos por um instante. Ele sorria. Esperava essa reação.
- Esse homem morreu uma hora depois. A causa da morte? Desconhecida.
- ... isso é bizzarro - Frank levantou as sobrancelhas, surpreso -.
O motorista riu. Apontando para a esquerda, disse:
- Prédio azul, quinto andar. Foi lá que "o demônio" matou aquele homem.
O prédio aparecia avelhentado, mas ainda mantinha o ar nobre que tivera em tempos melhores. Frank sentia um grande apelo por esse tipo de decadência. Em uma janela do sexto andar, uma velha mulher, de aparência perturbadora, fumava; parecia uma ave de rapina à espreita de novas vitimas. Como lendo sua mente, o motorista continuou:
- A velha da janela já enterrou 4 maridos e 5 filhos. Fica o dia inteiro fumando na janela. As crianças do bairro dizem que ela não sai de lá nem para comer. Ninguém sabe ao certo quantos anos ela tem, pois não fala com ninguém. No porta-luvas tem uma foto dela e o quarto marido, morto, sentado na cama do lado dela.
- Que personagem interessante - pensou Frank -.Como você conseguiu a foto então, se ela não fala com ninguém? - respondeu.
- Você é policial? - o tom da pergunta era defensivo.
- Quê mais você tem no carro? - respondeu Frank, sem se importar.
O motorista o observou, desconfiado, por alguns instantes.
- Uma pedra do túmulo de um cantor - respondeu finalmente -. Mas ela não está assombrada como o vendedor garantiu. Só a conservo porque paguei caro por ela. E mais nada.
- Não é uma coleção muito grande.
- Não é um carro muito grande. O resto da coleção fica em casa.
- Que classe de coisas?
- Uma cruz de madeira que achei flutuando na beira-mar. Um côco que matou um infeliz que não acreditava na gravidade. Coisas assim.
Frank sorria. Gostava desse cara. Alguns minutos depois, chegaram até a praia. Ele decidiu ficar no bar de sempre.
Ao chegar, desceu do táxi, pagou o motorista e despediu-se. Acendeu um cigarro e observou as estrelas. Ao terminar, entrou no bar e se dirigiu até uma mesa com vista ao mar. Quando tinha andado dois passos em direção à mesa, percebeu um perfume no ar. Buscou ao seu redor, e então a viu. Ela não estava só.
Setembro 16, 2010
500 days (V)
Acordou num quarto pequeno de paredes brancas. Bocejando, olhou ao redor. Um retrato e um cinzeiro na escrivaninha. Um violão no canto. Ele estava deitado numa cama de lençóis brancos. O pequeno beagle pulou pra cima dele, balançando o rabo alegremente.
- Lilo, desce! - disse ele. Abraçou o cachorro e o colocou de volta no chão. Ele saiu correndo do quarto, latindo.
Ao seu lado, ela despertou. Ele olhou pra ela, parecia dez anos mais jovem.
- Oi amor...
- Oi. Desculpa, não queria ter te acordado.
Ela aceitou a desculpa com um beijo.
- Está tudo do jeito que a gente planejou... - disse ele, fitando-a nos olhos, absorto.
- Não. Ainda não encontramos a vinícola. E você ainda não toca em barzinhos.
- Mas já me inspiras uma música por dia - respondeu ele sorrindo.
Ela riu. Aos ouvidos dele, seu riso era um festejo. Ele a amava. Anunciou:
- Vou fazer café da manhã. Fica aqui, prepararei tudo e o tomaremos na cama, juntos.
- Não vá. Fica comigo. - Era quase um suspiro.
- Como vou dizer não agora?
Ela fechou os olhos, sorrindo. Na janela, o sol anunciava um dia esplêndido.
- Que faremos hoje? Estava pensando em levarmos o Lilo para o parque, dar uma volta na cidade e depois tomar um vinho na varanda, olhando o pôr do sol...
Ela abriu os olhos.
- Podia ser um pouco mais criativo. Nós fizemos isso ontem.
Ele abriu os olhos, desconcertado. O esforço para lembrar foi em vão.
- É, mas continua sendo um bom plano - disfarçou-.
- Você não lembra porque nunca aconteceu. Ontem nunca aconteceu. Isto é um sonho, você está sonhando.
- Eu sei. - Uma súbita tristeza o invadiu, e transpareceu nessas duas palavras.
Ela riu cruelmente, divertida.
- É que você realmente pensou que isto era verdade? Eu morando contigo? Acordando do teu lado? Todo dia? Nunca ouvi coisa mais idiota na minha vida - disse, e riu mais uma vez; de uma maneira tão encantadora que só seria ruim acompanhada das palavras com que fora acompanhada.
- Cala a boca - disse ele, saindo da cama. Foi até a porta, onde Lilo o esperava, grunhindo, ameaçador.
- Até o cachorro te odeia! Olha só que beleza - ela rolava na cama, rindo. Parecia extasiada com o dano que causava.
Ele olhou ao redor, tentando fugir. Na janela, o vidro estava quebrado. Do lado de fora, uma noite escura. O vento que entrava era frio, antinatural. Numa mesa no canto, descobriu uma arma. Apontou-a para o cachorro e atirou. Ela continuava rindo.
- Julia, cala a boca. Por favor... - a arma agora apontava para ela.
- Quem você quer enganar? Tu não tens coragem para isso. - As palavras saiam da sua boca como balas. - Você não é nada! Nada! Nada!
Ele colocou a arma na própria cabeça.
Acordou sobressaltado. Os gritos dela ecoavam na sua cabeça. Engoliu, tentando se livrar do nó na sua garganta. Seu celular tocava no chão. Ele atendeu.
- Parabéns, mané! - a voz do outro lado era agradávelmente familiar.
- Obrigado. Mas não foi ontem? Que horas são?
- As 10, tu ainda tens duas horas para curtir. Tu estavas dormindo?
- Estava. Obrigado por me acordar.
- De novo pesadelos? - perguntou a voz do outro lado gravemente.
- Só um. Sempre o mesmo. E está ficando pior.
- Estou começando a ficar preocupado.
- Não fique.
- Eu sei o que está acontecendo, tentas sempre reviver esse sonho mas não consegues mais controlâ-lo. Talvez esteja na hora de parar.
- Talvez.
- A vida é melhor que os sonhos, Frank. Não esqueça disso. Procura ocupar teu tempo, conhecer pessoas, viajar. Poderias me visitar, sempre sonhaste com morar na Europa. Poderias voltar a trabalhar.
- Temos gente que trabalha por nós, tu sabes disso - retrucou, rindo-. Vou sair agora. A gente se fala depois.
- Você vai estar bem?
- Vou. Relaxa.
- Está bem, divirta-se. E manda notícias. Abraço.
- Marcelo - hesitou-.
- Fala.
- Obrigado por ligar.
Desligou o celular e o deixou cair no chão mais uma vez. Foi até o banheiro e se examinou em frente ao espelho. Olhos vermelhos, olheiras profundas. Era a própria imagem do desespero. Tomou um calmante e entrou no chuveiro.
Eram quase as onze quando deixou o apartamento. Decidiu ir pela escada. Ao chegar na rua, uma mulher falou com ele.
- Olá. Eu estava esperando por você - ela sorria levemente-.
Ele a analisou: cabelos escuros, pele clara, traços delicados e curvas suaves. Parecia ter sido desenhada por um artista muito timido. Colocou o seu melhor sorriso no rosto e respondeu
- Pois então sou um cara de sorte - deu 3 passos em direção a ela, e estendeu a mão-. Prazer, meu nome é-
- Eu sei quem você é, Frank. Como disse, eu estava esperando por você.
Ele fitou-a nos olhos; meio divertido, meio desconcertado. O esforço para lembrar foi em vão.
- Olha, desculpa, eu tive um dia dificil. Mas aposto que qualquer outro dia eu lembraria de ti. Mas já que estavas me esperando e eu estou aqui; por que não vens comigo? Vou dar uma volta e talvez tomar uns drinks. E depois... quem sabe?
- Desculpa, Frank. Não estou aqui para isso - ela sorria de uma maneira estranha. Era um sorriso leve, de mãe-.
- Posso saber o porquê da sua visita então? - perguntou, dando um passo para trás. Essa mulher parecia estar louca.
- Estou aqui para te salvar.
- Me salvar? Salve-me do tédio, então, e volte para o seu hospício. Quem é você, afinal?
- Eu sou um anjo.
- Lilo, desce! - disse ele. Abraçou o cachorro e o colocou de volta no chão. Ele saiu correndo do quarto, latindo.
Ao seu lado, ela despertou. Ele olhou pra ela, parecia dez anos mais jovem.
- Oi amor...
- Oi. Desculpa, não queria ter te acordado.
Ela aceitou a desculpa com um beijo.
- Está tudo do jeito que a gente planejou... - disse ele, fitando-a nos olhos, absorto.
- Não. Ainda não encontramos a vinícola. E você ainda não toca em barzinhos.
- Mas já me inspiras uma música por dia - respondeu ele sorrindo.
Ela riu. Aos ouvidos dele, seu riso era um festejo. Ele a amava. Anunciou:
- Vou fazer café da manhã. Fica aqui, prepararei tudo e o tomaremos na cama, juntos.
- Não vá. Fica comigo. - Era quase um suspiro.
- Como vou dizer não agora?
Ela fechou os olhos, sorrindo. Na janela, o sol anunciava um dia esplêndido.
- Que faremos hoje? Estava pensando em levarmos o Lilo para o parque, dar uma volta na cidade e depois tomar um vinho na varanda, olhando o pôr do sol...
Ela abriu os olhos.
- Podia ser um pouco mais criativo. Nós fizemos isso ontem.
Ele abriu os olhos, desconcertado. O esforço para lembrar foi em vão.
- É, mas continua sendo um bom plano - disfarçou-.
- Você não lembra porque nunca aconteceu. Ontem nunca aconteceu. Isto é um sonho, você está sonhando.
- Eu sei. - Uma súbita tristeza o invadiu, e transpareceu nessas duas palavras.
Ela riu cruelmente, divertida.
- É que você realmente pensou que isto era verdade? Eu morando contigo? Acordando do teu lado? Todo dia? Nunca ouvi coisa mais idiota na minha vida - disse, e riu mais uma vez; de uma maneira tão encantadora que só seria ruim acompanhada das palavras com que fora acompanhada.
- Cala a boca - disse ele, saindo da cama. Foi até a porta, onde Lilo o esperava, grunhindo, ameaçador.
- Até o cachorro te odeia! Olha só que beleza - ela rolava na cama, rindo. Parecia extasiada com o dano que causava.
Ele olhou ao redor, tentando fugir. Na janela, o vidro estava quebrado. Do lado de fora, uma noite escura. O vento que entrava era frio, antinatural. Numa mesa no canto, descobriu uma arma. Apontou-a para o cachorro e atirou. Ela continuava rindo.
- Julia, cala a boca. Por favor... - a arma agora apontava para ela.
- Quem você quer enganar? Tu não tens coragem para isso. - As palavras saiam da sua boca como balas. - Você não é nada! Nada! Nada!
Ele colocou a arma na própria cabeça.
Acordou sobressaltado. Os gritos dela ecoavam na sua cabeça. Engoliu, tentando se livrar do nó na sua garganta. Seu celular tocava no chão. Ele atendeu.
- Parabéns, mané! - a voz do outro lado era agradávelmente familiar.
- Obrigado. Mas não foi ontem? Que horas são?
- As 10, tu ainda tens duas horas para curtir. Tu estavas dormindo?
- Estava. Obrigado por me acordar.
- De novo pesadelos? - perguntou a voz do outro lado gravemente.
- Só um. Sempre o mesmo. E está ficando pior.
- Estou começando a ficar preocupado.
- Não fique.
- Eu sei o que está acontecendo, tentas sempre reviver esse sonho mas não consegues mais controlâ-lo. Talvez esteja na hora de parar.
- Talvez.
- A vida é melhor que os sonhos, Frank. Não esqueça disso. Procura ocupar teu tempo, conhecer pessoas, viajar. Poderias me visitar, sempre sonhaste com morar na Europa. Poderias voltar a trabalhar.
- Temos gente que trabalha por nós, tu sabes disso - retrucou, rindo-. Vou sair agora. A gente se fala depois.
- Você vai estar bem?
- Vou. Relaxa.
- Está bem, divirta-se. E manda notícias. Abraço.
- Marcelo - hesitou-.
- Fala.
- Obrigado por ligar.
Desligou o celular e o deixou cair no chão mais uma vez. Foi até o banheiro e se examinou em frente ao espelho. Olhos vermelhos, olheiras profundas. Era a própria imagem do desespero. Tomou um calmante e entrou no chuveiro.
Eram quase as onze quando deixou o apartamento. Decidiu ir pela escada. Ao chegar na rua, uma mulher falou com ele.
- Olá. Eu estava esperando por você - ela sorria levemente-.
Ele a analisou: cabelos escuros, pele clara, traços delicados e curvas suaves. Parecia ter sido desenhada por um artista muito timido. Colocou o seu melhor sorriso no rosto e respondeu
- Pois então sou um cara de sorte - deu 3 passos em direção a ela, e estendeu a mão-. Prazer, meu nome é-
- Eu sei quem você é, Frank. Como disse, eu estava esperando por você.
Ele fitou-a nos olhos; meio divertido, meio desconcertado. O esforço para lembrar foi em vão.
- Olha, desculpa, eu tive um dia dificil. Mas aposto que qualquer outro dia eu lembraria de ti. Mas já que estavas me esperando e eu estou aqui; por que não vens comigo? Vou dar uma volta e talvez tomar uns drinks. E depois... quem sabe?
- Desculpa, Frank. Não estou aqui para isso - ela sorria de uma maneira estranha. Era um sorriso leve, de mãe-.
- Posso saber o porquê da sua visita então? - perguntou, dando um passo para trás. Essa mulher parecia estar louca.
- Estou aqui para te salvar.
- Me salvar? Salve-me do tédio, então, e volte para o seu hospício. Quem é você, afinal?
- Eu sou um anjo.
Setembro 13, 2010
500 days (IV)
A porta do elevador se abriu enquanto uma voz feminina anunciava o sétimo andar.
- Está cheio - ele anunciou, com o cigarro ainda nos lábios, a uma velha mulher, enquanto apertava irritado o botão que fecharia as portas novamente.
Lembrou da cena que acabara de acontecer alguns andares acima. Começou a rir. Atravessou o lobby ignorando o sujeito baixinho que lhe pedia apagasse o cigarro. Ao chegar na calçada, olhou ao redor. O sol escaldante o cegava.
...
Fechou a porta do apartamento tras de si e colocou as chaves na mesinha próxima à porta. Pôs um disco para tocar e serviu-se uma dose de whiskey. Sentou no sofá e deixou a bebida lhe queimar a garganta. Olhou para o retrato na mesa de centro. A moldura de prata estava amassada em vários pontos, e o vidro, quebrado. Deixou o copo na mesa e pegou o retrato. Relembrou o encontro da tarde anterior e todo o peso do tempo que caiu sobre os traços da fotografia o atormentava. Cedo o suficiente, lembrou o que sucedeu àquele encontro. O bar, a praia, o hotel. Sorriu. Mais um gole de whiskey. Nostálgico, acariciou o retrato e deu um grito quando o vidro cortou seus dedos. Se levantou e foi até a cozinha, xingando. Jogou o retrato no lixo, mais uma vez. Voltou à sala e olhou ao redor. Um ar de decadência governava o lugar. Vidros rotos, copos vazios. Cinzeiros cheios, buracos queimados no sofá. E Jane Bunnett chorando Lágrimas Negras no fundo. Um calendário, meio escondido embaixo de um banco, chamou sua atenção. Pegou-o e descobriu que dia era.
- Feliz aniversário - pensou -, um ano mais perto da morte.
Essa idéia lhe trouxe conforto. Tudo fica mais decadente após algum tempo. Lembrou da frase que leu em algum lugar: "Quando você chega em uma certa idade, tudo fica um pouco mais decadente, existe um preço psíquico. Não há nada mais sórdido do que acordar sem saber o nome da pessoa ao seu lado". Ele concordava. Com isso e, também, com dormir com uma pessoa sem ter realmente um motivo para isso. Cuidadosamente, colocou o calendário de volta no seu lugar embaixo do banco e dirigiu-se ao quarto. Tirou a roupa, espalhando-a cuidadosamente pelo chão. Foi até a janela aberta, enquanto João Gilberto cantava
- "Estate il sole che ogni giorno ci scaldava
Che splendidi tramonti dipingeva
Adesso brucia solo con furore".
Ele soltou um grito repentino e respirou, mais calmo. Fechou os vidros, cobertos de tinta negra, e foi até a cozinha. Tirou o retrato da lixeira, colocando-o de volta na mesa em frente ao sofá. Voltou ao quarto e deitou na cama, olhando para o teto, escuro.
- Feliz aniversário - disse em voz alta, mais ninguém iria falar isso nesse dia.
Fechou os olhos e durmiu.
- Está cheio - ele anunciou, com o cigarro ainda nos lábios, a uma velha mulher, enquanto apertava irritado o botão que fecharia as portas novamente.
Lembrou da cena que acabara de acontecer alguns andares acima. Começou a rir. Atravessou o lobby ignorando o sujeito baixinho que lhe pedia apagasse o cigarro. Ao chegar na calçada, olhou ao redor. O sol escaldante o cegava.
...
Fechou a porta do apartamento tras de si e colocou as chaves na mesinha próxima à porta. Pôs um disco para tocar e serviu-se uma dose de whiskey. Sentou no sofá e deixou a bebida lhe queimar a garganta. Olhou para o retrato na mesa de centro. A moldura de prata estava amassada em vários pontos, e o vidro, quebrado. Deixou o copo na mesa e pegou o retrato. Relembrou o encontro da tarde anterior e todo o peso do tempo que caiu sobre os traços da fotografia o atormentava. Cedo o suficiente, lembrou o que sucedeu àquele encontro. O bar, a praia, o hotel. Sorriu. Mais um gole de whiskey. Nostálgico, acariciou o retrato e deu um grito quando o vidro cortou seus dedos. Se levantou e foi até a cozinha, xingando. Jogou o retrato no lixo, mais uma vez. Voltou à sala e olhou ao redor. Um ar de decadência governava o lugar. Vidros rotos, copos vazios. Cinzeiros cheios, buracos queimados no sofá. E Jane Bunnett chorando Lágrimas Negras no fundo. Um calendário, meio escondido embaixo de um banco, chamou sua atenção. Pegou-o e descobriu que dia era.
- Feliz aniversário - pensou -, um ano mais perto da morte.
Essa idéia lhe trouxe conforto. Tudo fica mais decadente após algum tempo. Lembrou da frase que leu em algum lugar: "Quando você chega em uma certa idade, tudo fica um pouco mais decadente, existe um preço psíquico. Não há nada mais sórdido do que acordar sem saber o nome da pessoa ao seu lado". Ele concordava. Com isso e, também, com dormir com uma pessoa sem ter realmente um motivo para isso. Cuidadosamente, colocou o calendário de volta no seu lugar embaixo do banco e dirigiu-se ao quarto. Tirou a roupa, espalhando-a cuidadosamente pelo chão. Foi até a janela aberta, enquanto João Gilberto cantava
- "Estate il sole che ogni giorno ci scaldava
Che splendidi tramonti dipingeva
Adesso brucia solo con furore".
Ele soltou um grito repentino e respirou, mais calmo. Fechou os vidros, cobertos de tinta negra, e foi até a cozinha. Tirou o retrato da lixeira, colocando-o de volta na mesa em frente ao sofá. Voltou ao quarto e deitou na cama, olhando para o teto, escuro.
- Feliz aniversário - disse em voz alta, mais ninguém iria falar isso nesse dia.
Fechou os olhos e durmiu.
Setembro 05, 2010
500 days (III)
A garrafa de whiskey repousava na areia, incrívelmente branca agora. No céu, incrívelmente escuro, as estrelas, incrívelmente brilhantes, piscavam impassíveis. A brisa parecia explorar cada centimetro do seu corpo, desejava ficar assim para sempre. Observou-a, alguns metros à sua frente, girando sobre si com braços abertos, olhos fechados e um sorriso de satisfação tão perfeito que parecia ter nascido junto com ela. Ao longe, ouviu um tiro e ela vibrou em luzes. Como quem acorda de um sonho bom para um sonho melhor, ela abriu os olhos e caminhou na direção dele, cantarolando uma melodia que acabara de inventar.
- "E eles nunca vão saber... o lugar em que vivemos todos querem conhecer".
- Que lugar é esse?
Ela deitou na areia, sorrindo de novo, e respondeu.
- Estamos aqui agora.
Ele compreendeu. Havia perfeição em tudo que ele sentia nesse momento. Inclinando-se sobre ela, achou que pudesse escutar o seu coração batendo, calmo e frenético ao mesmo tempo. Beijou-a e ela pareceu voltar à realidade, compreendendo. Quando separou seus lábios dos dela, um leve gemido escapou do seu peito que subia e descia, agitado, enquanto ela franzia o cenho, ainda com olhos fechados.
...
A grande janela do quarto mostrava uma vista abrumadora da ponta; à distância, um velero cruzava as águas lentamente. Do outro lado, Michael Franti começara assobiar; ele olhou para a cama vazia, procurando com os olhos. Ela surgiu a través da porta do banheiro, nua.
- Adoro essa música.
O corpo nú dela era o único que conservava a perfeição que experimentara há umas horas atrás.
- Eu sei.
Ela ficou na varanda, junto dele, e acendeu um cigarro. Ele assistia às ondas golpear as pedras da praia, dezenas de metros embaixo. Lembrou do tiro que ouvira na noite anterior. Alguém havia morrido perto dele? Decidiu não fazer essa pergunta.
- Quanto tempo vais ficar na cidade?
- Queres saber quando eu vou embora? - um sorriso triste, ou talvez sarcástico, adornava seu rosto.
- Eu não disse isso.
- Pouco tempo, talvez não nos vejamos de novo.
- Bobagem, sempre precisarás de alguém para pagar a conta.
Ela soltou uma gargalhada. A inspiração daquela tristeza, ou talvez sarcasmo, parecia ter desaparecido; isso o aliviou. Ele acrescentou
- Nunca mais duvidarei quando tu falares em surpresas.
Ela riu de novo, ligeiramente ruborizada. Fixou seus olhos nos dele por alguns instantes e, incapaz de achar uma resposta apropriada, olhou em direção ao mar e deu uma tragada do seu cigarro.
- Vou tomar um banho - disse ela, entregando-lhe o cigarro.
Ele deu uma tragada, com a mente em branco, enquanto ela se afastava. Lançou o cigarro para o vazio.
- Queres companhia?
Ela parou no vão da porta, e o olhou nos olhos, sem se virar totalmente, com os dedos tocando suavemente ambos os lados. Seus olhos eram tão intensos que ele não conseguiu articular mais uma palavra. Ela atravessou o vão da porta e a fechou tras de si.
- Oh deus - pensou ele. Dirigiu-se à mesa e encontrou, em meio a garrafas vazias, uma que ainda continha um pouco de champagne. Se serviu uma dose e armou-se de coragem. Colocou seu cd favorito de smooth jazz, aumentou o volume, e chegou até a porta do banheiro. Com um sorriso nos lábios, girou a maçaneta.
A porta estava trancada.
- "E eles nunca vão saber... o lugar em que vivemos todos querem conhecer".
- Que lugar é esse?
Ela deitou na areia, sorrindo de novo, e respondeu.
- Estamos aqui agora.
Ele compreendeu. Havia perfeição em tudo que ele sentia nesse momento. Inclinando-se sobre ela, achou que pudesse escutar o seu coração batendo, calmo e frenético ao mesmo tempo. Beijou-a e ela pareceu voltar à realidade, compreendendo. Quando separou seus lábios dos dela, um leve gemido escapou do seu peito que subia e descia, agitado, enquanto ela franzia o cenho, ainda com olhos fechados.
...
A grande janela do quarto mostrava uma vista abrumadora da ponta; à distância, um velero cruzava as águas lentamente. Do outro lado, Michael Franti começara assobiar; ele olhou para a cama vazia, procurando com os olhos. Ela surgiu a través da porta do banheiro, nua.
- Adoro essa música.
O corpo nú dela era o único que conservava a perfeição que experimentara há umas horas atrás.
- Eu sei.
Ela ficou na varanda, junto dele, e acendeu um cigarro. Ele assistia às ondas golpear as pedras da praia, dezenas de metros embaixo. Lembrou do tiro que ouvira na noite anterior. Alguém havia morrido perto dele? Decidiu não fazer essa pergunta.
- Quanto tempo vais ficar na cidade?
- Queres saber quando eu vou embora? - um sorriso triste, ou talvez sarcástico, adornava seu rosto.
- Eu não disse isso.
- Pouco tempo, talvez não nos vejamos de novo.
- Bobagem, sempre precisarás de alguém para pagar a conta.
Ela soltou uma gargalhada. A inspiração daquela tristeza, ou talvez sarcasmo, parecia ter desaparecido; isso o aliviou. Ele acrescentou
- Nunca mais duvidarei quando tu falares em surpresas.
Ela riu de novo, ligeiramente ruborizada. Fixou seus olhos nos dele por alguns instantes e, incapaz de achar uma resposta apropriada, olhou em direção ao mar e deu uma tragada do seu cigarro.
- Vou tomar um banho - disse ela, entregando-lhe o cigarro.
Ele deu uma tragada, com a mente em branco, enquanto ela se afastava. Lançou o cigarro para o vazio.
- Queres companhia?
Ela parou no vão da porta, e o olhou nos olhos, sem se virar totalmente, com os dedos tocando suavemente ambos os lados. Seus olhos eram tão intensos que ele não conseguiu articular mais uma palavra. Ela atravessou o vão da porta e a fechou tras de si.
- Oh deus - pensou ele. Dirigiu-se à mesa e encontrou, em meio a garrafas vazias, uma que ainda continha um pouco de champagne. Se serviu uma dose e armou-se de coragem. Colocou seu cd favorito de smooth jazz, aumentou o volume, e chegou até a porta do banheiro. Com um sorriso nos lábios, girou a maçaneta.
A porta estava trancada.
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