February 10, 2011

Dois

- Eu te amo - confessou.

Ele sentava na areia sem ouvir que, alguns passos trás de si, aquela boca rígida que perdera a alegria de outrora, pronunciava essas palavras como se cada uma delas queimasse feita fogo ao sair da sua garganta. Na incerteza, esperava uma resposta. Ele, alguns anos mais novo, sentado na areia feito menino, sem se importar com a calça importada que ganhou no último natal, distante e ausente, de cachos loiros bagunçados ao vento da praia às 17.26 de um dia qualquer; fechava os olhos para ouvir, como sempre fazia quando estava só, o mundo falando mais alto que seus pensamentos.

Aquela boca se abriu novamente, e fechou-se ao pensar, como sempre fazia, que talvez devesse esperar mais um pouco pela resposta que desejava. Avançou uns passos sem se importar com as conchas espalhadas na areia molhada, e sentou do lado dele, que agora observava uma criança brincando nas ondas.

- Quando era criança, meu pai me levava a uma praia como essa. Os dois ficávamos olhando pro mar durante horas, então eu fazia uma pergunta qualquer, e ele sempre respondia. Sempre sabia todas as respostas. Desde que morreu, quando estou na praia, faço uma pergunta e fecho os olhos, e ele ainda responde. Olha isso! - apontou.

Ambos olharam para a pequena barca de velas laranja que se perdia no horizonte. Uma onda particularmente grande quebrou com força, sepultando o menino que surgiu, rindo, alguns segundos depois. Gaivotas pousaram na areia perto deles.

- O que você perguntou hoje?

O homem, feito menino, sem se importar com aquela boca rígida ou aqueles olhos negros que perderam o brilho de outrora, respondeu em silêncio, com um sorriso e um olhar desses olhos marrons, de um marrom cálido e sedutor, único entre tantos outros.

- Eu te amo.
- Eu sei - disse o homem que, feito menino, sem se importar com os olhos negros aprehensivos, dissolvia o sorriso enquanto se levantava, a calça importada suja, e estendia uma mão àquelas mãos alguns anos mais velhas e escuras que as suas, que perderam a energia de outrora mas recusavam aquele gesto sutil, ignorando a dor de uma das conchas espalhadas pela areia molhada penetrando na sua pele.

E esse homem, feito menino, sem se importar mais com nada, beijou aquelas mãos, aqueles olhos e aquela boca rígida, com seu beijo tenro e demorado, que parecia devolver alegria, brilho e energia em cada movimento. Então se separaram.

- Eu te amo - repetiu.
- Eu sei - sorriu de novo com aquele sorriso que nascia meio extinto.
- Você me ama?
Então ele, sem silêncios, sem sorrisos nem olhares, se importando agora com esposa e filhos, fitou aqueles olhos negros e disse:
- Não.

Os dois então se separaram, o homem dos olhos marrons, com aquele brilho de menino, andando indiferente pela areia; e o homem da boca rígida, as mão cansadas, que sentou de novo na areia molhada da praia às 17.41 de um dia qualquer, fechou os olhos sem brilho, e chorou.