January 20, 2011

Às vezes, sempre e nunca

Gritou seu próprio nome esperando ser ouvido do outro lado da porta de alumínio da casa número trinta e cinco. Do outro lado do muro, longe dessa rua desolada com escombros nas calçadas e arame farpado nas árvores, ouvia-se um molho de chaves tremendo na mão da velha empregada negra que abria a porta vagarosamente.

- Posso entrar?
- Pode sim. Você já me deu seu nome, quem sou eu agora... - o resto da frase se perdeu em balbucios enquanto ela se voltava para fechar a porta, com chave, novamente.

O pequeno jardim da casa número trinta e cinco era escuro e agradável, com folhas verdes e secas espalhadas pelo chão de baldosas amareladas e o carro batido e às vezes descartado, janelas fechadas, acumulando poeira na garagem. A velha empregada negra chamou-a a gritos e ele se sentou em uma das cadeiras do terraço enquanto as miúdas cadelas começavam a latir. Reparou na comida espalhada pelo chão, e sentiu-se um invasor com essa visita não anunciada. A negra sentou-se no sofá à sua frente, queixando-se do número de chaves que agora ela tinha que guardar. Colocou uma bolsa do seu lado, no lugar que antes frequentemente era ocupado por três carteiras de cigarro: a quase vazia, dela; a quase cheia, dele; e uma terceira cheia de cinzas e filtros amassados. A presença dele nesse lugar parecia multiplicar-se com cada um desses pequenos detalhes, sentia ter vivido metade de uma vida nesse terraço meio escuro de folhas secas e verdes espalhadas pelo chão amarelado, tentando hipnotizar a cadela de cabelos aparados cada vez que ela ia procurar uma nova carteira de cigarros, um cinzeiro, ou um copo para beber o vinho barato que ambos tinham acabado de comprar. Ao mesmo tempo, sentia ter estado ausente nesse terraço por metade de uma vida. E agora ele estava ai, sem um convite, em uma visita não anunciada.

- ... monte de chaves, que nem São Pedro. É ele que cuida das chaves, ?
- Dos portões do céu, é.

Quando ela finalmente apareceu, ele não teve coragem de se levantar para abraçá-la, como era costume, segurando-a forte contra si, sentindo o cheiro dos seus cabelos e o calor da sua pele, adivinhando o sorriso dela contra o peito dele. Após um instante que parecera não ter acontecido, ela sentou-se no sofá à frente dele. Nunca, nesse terraço, tivera que contemplá-la a essa distância toda.

- Soube que estavas doente ontem, fiquei preocupado contigo e vim te visitar. Também trouxe chocolates, foram os melhores que encontrei, queria ter comprado teus favoritos, mas nunca perguntei quais eram. - pensou ele. Porém, só perguntou se ela estava melhor, o que ela teve, e estendeu o braço para entregar a caixa de chocolates.

Quando ele falou que iria embora do país- não viajar, embora -, ela, sem mais, perguntou sobre o trabalho dele. Fizeram uma pausa para se olharem intensamente e, após um instante que parecera eterno, ela sorriu nervosa e desviou o olhar.

- Penso em ti às vezes. Sinto saudades de ti sempre. Queria nunca ter feito o que eu fiz. - pensou ele.

Então aconteceu, barulho de carro, batida de porta, batida na porta. O outro chegou.

- E aí, cara.
- Beleza?
- ...
- ...

- Então, vou indo. Falou, cara.
- Falou.

Ela o acompanhou até a porta de alumínio, saltitante por entre as folhas verdes e secas espalhadas pelo chão amarelado e gretado do jardim escuro da casa número trinta e cinco. Ele saiu a essa rua deserta, com escombros nas calçadas e arame farpado nas árvores e disse chau, depois a gente conversa.

- Tenho medo de ir embora e nunca mais te ver - tentou, tentou, tentou. Mas, mais uma vez, não disse nada. E abraçou-a com o mesmo jeito que não era nada parecido àquele jeito com que costumava abraçá-la.

Nunca, nessa porta, nesse degrau, nessa fachada da casa número trinta e cinco, tivera que se despedir sem um abraço apertado, sem um beijo. Nunca, nessa rua deserta com escombros nas calçadas e arame farpado nas árvores, acendera um cigarro enquanto andava, sem esperar um táxi ou sem ir até o supermercado comprar um vinho barato. Estava fugindo. E fugiu, a passos lentos, esquivando escombros e arames farpados, dando um boa noite com gosto de adeus para o vigia, virando a esquina da avenida, olhando os desenhos da calçada, escutando buzinas misturar-se à sua música favorita tocando em um carro estacionado, sempre andando. E andou até o bar decadente daquela rua do centro, com mesas e cachorros trepando na calçada, e pediu uma bebida.

- Os chocolates. Pelo menos em cada chocolate ela vai lembrar de mim.- pensou.

E não pensou mais nada.