Março 06, 2011
Ou talvez
Será em um dia frio como qualquer outro dos teus dias. Esperarei em pé em frente à tua escola ou talvez sentado na calçada segurando uma rosa cor de rosa porque uma vermelha seria muito óbvia. Ou talvez anos depois em Garki ou Maitama em alguma praça qualquer em um dia tão quente que nos lembrará do Brasil. Ou mesmo no campus na cidade mais bonita que já conheceste, andando pelos corredores com um livro nas mãos ou sentada em algum jardim com o cabelo preso pensando em alguma conversação que acontecera minutos atrás, sem óculos, pois ninguém precisa enxergar nada enquanto pensa sobre as coisas que acabaram de acontecer. E então levantarei da calçada com a rosa cor de rosa nas mãos roxas de frio e sacudindo a neve da velha calça que usei no dia em que te conheci mas então lembro que te conheci à noite e não vestia uma calça mas uma bermuda porque foi no Brasil que te conheci e no Brasil é sempre quente demais para usar uma calça em qualquer festa que acontecesse do lado da piscina. Ou segurando então o violão que peguei emprestado do hippie que conheci na véspera e gostou tanto da minha história, até sentar do teu lado e interromper teus pensamentos tocando aquela velha canção que cantei para ti tantas vezes enquanto te via adormecer deitada tão longe, sorrindo de olhos fechados cada vez que eu entonava levo você no olhar. E então tu acordarás, e sorrirás mas dessa vez sem fechar os olhos e em silêncio porque tu nunca me interrompes quando estou cantando para ti. Ou talvez porque faz tanto tempo que eu não canto para ti enquanto adormeces naquela cama que adoras mas agora está tão longe porque Garki ou Maitama é tão longe de casa que significa várias semanas em um barco sem adormecer ao som da voz do meu violão. E quando eu acabar, sorrirás de novo, aplaudindo baixinho para não chamar a atenção das pessoas que passam olhando para nós se perguntando que lingua estranha é essa, e dirás obrigada por tocar para mim e eu rirei do teu sotaque de quem não fala português há muito tempo. Ou talvez porque estás vestindo um daqueles colares que são tão teus e me lembram tanto de ti. E eu direi agora estou aqui, posso tocar para ti o tempo que quiseres. E te entregarei a rosa cor de rosa então esperando que tu repares na cor mas em vez repararás nas minhas mãos roxas e ficarás em dúvida sobre me abraçar ou segurar as minhas mãos entre as tuas até elas pararem de tremer, mas então eu te dou o abraço que tantas vezes desejamos nos dar, tentando dizer tudo aquilo que sempre quis dizer mas ninguém diz assim tão longe e não haverá mais dúvida e segurarás as minhas mãos entre as tuas dizendo tadinho você está gelado - e eu sorrindo de novo - até elas pararem de tremer. E é então a minha vez de segurar as tuas mãos entre as minhas beijá-las e dizer não sabes o quanto eu senti a tua falta e tu pensarás nas semanas sem canto enquanto eu penso nos meses à distância. E caminharemos então entre as flores dos jardins do campus ou talvez você rirá cada vez que eu escorrego nas calçadas geladas de inverno em frente à tua escola perguntando como foi teu dia ou talvez o que tu tens feito nesse tempo todo sem nos vermos. E fingirei que esqueci que não gostas e pedirei para pararmos em um café, e tu fingirás que gostas e aceitarás por que no fundo sabes que eu preciso segurar o café quente nas mãos roxas geladas de frio do inverno e então direi leva-me ao teu lugar favorito e andaremos até algum lugar desconhecido para mim mas maravilhosamente familiar por que será tão teu e me lembrará sempre tanto de ti. Ou talvez até a cama que tanto adoras e está tão perto quanto um passeio em bicicleta mas iremos de ônibus por que até o café já está roxo de frio do inverno. E então deitarás na cama colocando a cabeça no travesseiro e olhando para mim mas de olhos fechados e eu queria ter o violão emprestado do hippie que conheci na véspera para te ver sorrindo mais uma vez enquanto eu entono não sei bem certo se é só ilusão mas poerei então um disco de Debussy - e quase peço para tocares piano para mim mas já está tarde e os vizinhos reclamarão - por que eu sei como tu ficas ao escutar Debussy e só então depois de eu tirar o casaco perceberás o perfume que estou usando e comprei tanto tempo atrás. Espreguiçarás inocente e provacativa enquanto eu desvio o olhar até o poster do circo que me diz o que fazer e te beijo tentando não dizer nada do que quero dizer por que ninguém diz assim tão rápido. E então estragarei tudo dizendo te amo e voltarei sem saber o que dizer à cadeira para ficar assim tão longe que várias semanas adormecendo sem canto tornam-se mais perto, e poder assim nessa distância toda fingir que nada foi dito pois ninguém diz te amo assim tão longe. E então algum amigo teu aparecerá para me resgatar daquele silêncio tão vazio mas tão cheio de palavras não ditas, com teu olhar procurando o meu perdido em aquele poster de circo que não me diz mais nada, pois talvez estaremos ainda em algum café ainda segurando um café roxo de frio do inverno enquanto eu falo com ele com um sotaque que te faz rir e partiremos então em direções opostas por que ninguém diz te amo assim tão rápido assim tão longe. Ou talvez segurarás mais uma vez as minhas mãos entre as tuas e dirás de novo tadinho você ainda está gelado e voltaremos andando para aquele lugar que é teu favorito e me faz sorrir por que é tão teu e me lembra tanto de ti e tuas mãos dirão também aquilo que eu não devia ter dito assim tão rápido por que ninguém diz isso assim tão longe. E assim com as tuas mãos entre as minhas, tudo ficará tão perto e tão lento que parecerá que o mundo envelhece ao nosso redor por não ser capaz de dizer te amo assim tão rápido, sem importar quão longe.
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