Acordou num quarto pequeno de paredes brancas. Bocejando, olhou ao redor. Um retrato e um cinzeiro na escrivaninha. Um violão no canto. Ele estava deitado numa cama de lençóis brancos. O pequeno beagle pulou pra cima dele, balançando o rabo alegremente.
- Lilo, desce! - disse ele. Abraçou o cachorro e o colocou de volta no chão. Ele saiu correndo do quarto, latindo.
Ao seu lado, ela despertou. Ele olhou pra ela, parecia dez anos mais jovem.
- Oi amor...
- Oi. Desculpa, não queria ter te acordado.
Ela aceitou a desculpa com um beijo.
- Está tudo do jeito que a gente planejou... - disse ele, fitando-a nos olhos, absorto.
- Não. Ainda não encontramos a vinícola. E você ainda não toca em barzinhos.
- Mas já me inspiras uma música por dia - respondeu ele sorrindo.
Ela riu. Aos ouvidos dele, seu riso era um festejo. Ele a amava. Anunciou:
- Vou fazer café da manhã. Fica aqui, prepararei tudo e o tomaremos na cama, juntos.
- Não vá. Fica comigo. - Era quase um suspiro.
- Como vou dizer não agora?
Ela fechou os olhos, sorrindo. Na janela, o sol anunciava um dia esplêndido.
- Que faremos hoje? Estava pensando em levarmos o Lilo para o parque, dar uma volta na cidade e depois tomar um vinho na varanda, olhando o pôr do sol...
Ela abriu os olhos.
- Podia ser um pouco mais criativo. Nós fizemos isso ontem.
Ele abriu os olhos, desconcertado. O esforço para lembrar foi em vão.
- É, mas continua sendo um bom plano - disfarçou-.
- Você não lembra porque nunca aconteceu. Ontem nunca aconteceu. Isto é um sonho, você está sonhando.
- Eu sei. - Uma súbita tristeza o invadiu, e transpareceu nessas duas palavras.
Ela riu cruelmente, divertida.
- É que você realmente pensou que isto era verdade? Eu morando contigo? Acordando do teu lado? Todo dia? Nunca ouvi coisa mais idiota na minha vida - disse, e riu mais uma vez; de uma maneira tão encantadora que só seria ruim acompanhada das palavras com que fora acompanhada.
- Cala a boca - disse ele, saindo da cama. Foi até a porta, onde Lilo o esperava, grunhindo, ameaçador.
- Até o cachorro te odeia! Olha só que beleza - ela rolava na cama, rindo. Parecia extasiada com o dano que causava.
Ele olhou ao redor, tentando fugir. Na janela, o vidro estava quebrado. Do lado de fora, uma noite escura. O vento que entrava era frio, antinatural. Numa mesa no canto, descobriu uma arma. Apontou-a para o cachorro e atirou. Ela continuava rindo.
- Julia, cala a boca. Por favor... - a arma agora apontava para ela.
- Quem você quer enganar? Tu não tens coragem para isso. - As palavras saiam da sua boca como balas. - Você não é nada! Nada! Nada!
Ele colocou a arma na própria cabeça.
Acordou sobressaltado. Os gritos dela ecoavam na sua cabeça. Engoliu, tentando se livrar do nó na sua garganta. Seu celular tocava no chão. Ele atendeu.
- Parabéns, mané! - a voz do outro lado era agradávelmente familiar.
- Obrigado. Mas não foi ontem? Que horas são?
- As 10, tu ainda tens duas horas para curtir. Tu estavas dormindo?
- Estava. Obrigado por me acordar.
- De novo pesadelos? - perguntou a voz do outro lado gravemente.
- Só um. Sempre o mesmo. E está ficando pior.
- Estou começando a ficar preocupado.
- Não fique.
- Eu sei o que está acontecendo, tentas sempre reviver esse sonho mas não consegues mais controlâ-lo. Talvez esteja na hora de parar.
- Talvez.
- A vida é melhor que os sonhos, Frank. Não esqueça disso. Procura ocupar teu tempo, conhecer pessoas, viajar. Poderias me visitar, sempre sonhaste com morar na Europa. Poderias voltar a trabalhar.
- Temos gente que trabalha por nós, tu sabes disso - retrucou, rindo-. Vou sair agora. A gente se fala depois.
- Você vai estar bem?
- Vou. Relaxa.
- Está bem, divirta-se. E manda notícias. Abraço.
- Marcelo - hesitou-.
- Fala.
- Obrigado por ligar.
Desligou o celular e o deixou cair no chão mais uma vez. Foi até o banheiro e se examinou em frente ao espelho. Olhos vermelhos, olheiras profundas. Era a própria imagem do desespero. Tomou um calmante e entrou no chuveiro.
Eram quase as onze quando deixou o apartamento. Decidiu ir pela escada. Ao chegar na rua, uma mulher falou com ele.
- Olá. Eu estava esperando por você - ela sorria levemente-.
Ele a analisou: cabelos escuros, pele clara, traços delicados e curvas suaves. Parecia ter sido desenhada por um artista muito timido. Colocou o seu melhor sorriso no rosto e respondeu
- Pois então sou um cara de sorte - deu 3 passos em direção a ela, e estendeu a mão-. Prazer, meu nome é-
- Eu sei quem você é, Frank. Como disse, eu estava esperando por você.
Ele fitou-a nos olhos; meio divertido, meio desconcertado. O esforço para lembrar foi em vão.
- Olha, desculpa, eu tive um dia dificil. Mas aposto que qualquer outro dia eu lembraria de ti. Mas já que estavas me esperando e eu estou aqui; por que não vens comigo? Vou dar uma volta e talvez tomar uns drinks. E depois... quem sabe?
- Desculpa, Frank. Não estou aqui para isso - ela sorria de uma maneira estranha. Era um sorriso leve, de mãe-.
- Posso saber o porquê da sua visita então? - perguntou, dando um passo para trás. Essa mulher parecia estar louca.
- Estou aqui para te salvar.
- Me salvar? Salve-me do tédio, então, e volte para o seu hospício. Quem é você, afinal?
- Eu sou um anjo.
September 16, 2010
September 13, 2010
500 days (IV)
A porta do elevador se abriu enquanto uma voz feminina anunciava o sétimo andar.
- Está cheio - ele anunciou, com o cigarro ainda nos lábios, a uma velha mulher, enquanto apertava irritado o botão que fecharia as portas novamente.
Lembrou da cena que acabara de acontecer alguns andares acima. Começou a rir. Atravessou o lobby ignorando o sujeito baixinho que lhe pedia apagasse o cigarro. Ao chegar na calçada, olhou ao redor. O sol escaldante o cegava.
...
Fechou a porta do apartamento tras de si e colocou as chaves na mesinha próxima à porta. Pôs um disco para tocar e serviu-se uma dose de whiskey. Sentou no sofá e deixou a bebida lhe queimar a garganta. Olhou para o retrato na mesa de centro. A moldura de prata estava amassada em vários pontos, e o vidro, quebrado. Deixou o copo na mesa e pegou o retrato. Relembrou o encontro da tarde anterior e todo o peso do tempo que caiu sobre os traços da fotografia o atormentava. Cedo o suficiente, lembrou o que sucedeu àquele encontro. O bar, a praia, o hotel. Sorriu. Mais um gole de whiskey. Nostálgico, acariciou o retrato e deu um grito quando o vidro cortou seus dedos. Se levantou e foi até a cozinha, xingando. Jogou o retrato no lixo, mais uma vez. Voltou à sala e olhou ao redor. Um ar de decadência governava o lugar. Vidros rotos, copos vazios. Cinzeiros cheios, buracos queimados no sofá. E Jane Bunnett chorando Lágrimas Negras no fundo. Um calendário, meio escondido embaixo de um banco, chamou sua atenção. Pegou-o e descobriu que dia era.
- Feliz aniversário - pensou -, um ano mais perto da morte.
Essa idéia lhe trouxe conforto. Tudo fica mais decadente após algum tempo. Lembrou da frase que leu em algum lugar: "Quando você chega em uma certa idade, tudo fica um pouco mais decadente, existe um preço psíquico. Não há nada mais sórdido do que acordar sem saber o nome da pessoa ao seu lado". Ele concordava. Com isso e, também, com dormir com uma pessoa sem ter realmente um motivo para isso. Cuidadosamente, colocou o calendário de volta no seu lugar embaixo do banco e dirigiu-se ao quarto. Tirou a roupa, espalhando-a cuidadosamente pelo chão. Foi até a janela aberta, enquanto João Gilberto cantava
- "Estate il sole che ogni giorno ci scaldava
Che splendidi tramonti dipingeva
Adesso brucia solo con furore".
Ele soltou um grito repentino e respirou, mais calmo. Fechou os vidros, cobertos de tinta negra, e foi até a cozinha. Tirou o retrato da lixeira, colocando-o de volta na mesa em frente ao sofá. Voltou ao quarto e deitou na cama, olhando para o teto, escuro.
- Feliz aniversário - disse em voz alta, mais ninguém iria falar isso nesse dia.
Fechou os olhos e durmiu.
- Está cheio - ele anunciou, com o cigarro ainda nos lábios, a uma velha mulher, enquanto apertava irritado o botão que fecharia as portas novamente.
Lembrou da cena que acabara de acontecer alguns andares acima. Começou a rir. Atravessou o lobby ignorando o sujeito baixinho que lhe pedia apagasse o cigarro. Ao chegar na calçada, olhou ao redor. O sol escaldante o cegava.
...
Fechou a porta do apartamento tras de si e colocou as chaves na mesinha próxima à porta. Pôs um disco para tocar e serviu-se uma dose de whiskey. Sentou no sofá e deixou a bebida lhe queimar a garganta. Olhou para o retrato na mesa de centro. A moldura de prata estava amassada em vários pontos, e o vidro, quebrado. Deixou o copo na mesa e pegou o retrato. Relembrou o encontro da tarde anterior e todo o peso do tempo que caiu sobre os traços da fotografia o atormentava. Cedo o suficiente, lembrou o que sucedeu àquele encontro. O bar, a praia, o hotel. Sorriu. Mais um gole de whiskey. Nostálgico, acariciou o retrato e deu um grito quando o vidro cortou seus dedos. Se levantou e foi até a cozinha, xingando. Jogou o retrato no lixo, mais uma vez. Voltou à sala e olhou ao redor. Um ar de decadência governava o lugar. Vidros rotos, copos vazios. Cinzeiros cheios, buracos queimados no sofá. E Jane Bunnett chorando Lágrimas Negras no fundo. Um calendário, meio escondido embaixo de um banco, chamou sua atenção. Pegou-o e descobriu que dia era.
- Feliz aniversário - pensou -, um ano mais perto da morte.
Essa idéia lhe trouxe conforto. Tudo fica mais decadente após algum tempo. Lembrou da frase que leu em algum lugar: "Quando você chega em uma certa idade, tudo fica um pouco mais decadente, existe um preço psíquico. Não há nada mais sórdido do que acordar sem saber o nome da pessoa ao seu lado". Ele concordava. Com isso e, também, com dormir com uma pessoa sem ter realmente um motivo para isso. Cuidadosamente, colocou o calendário de volta no seu lugar embaixo do banco e dirigiu-se ao quarto. Tirou a roupa, espalhando-a cuidadosamente pelo chão. Foi até a janela aberta, enquanto João Gilberto cantava
- "Estate il sole che ogni giorno ci scaldava
Che splendidi tramonti dipingeva
Adesso brucia solo con furore".
Ele soltou um grito repentino e respirou, mais calmo. Fechou os vidros, cobertos de tinta negra, e foi até a cozinha. Tirou o retrato da lixeira, colocando-o de volta na mesa em frente ao sofá. Voltou ao quarto e deitou na cama, olhando para o teto, escuro.
- Feliz aniversário - disse em voz alta, mais ninguém iria falar isso nesse dia.
Fechou os olhos e durmiu.
September 05, 2010
500 days (III)
A garrafa de whiskey repousava na areia, incrívelmente branca agora. No céu, incrívelmente escuro, as estrelas, incrívelmente brilhantes, piscavam impassíveis. A brisa parecia explorar cada centimetro do seu corpo, desejava ficar assim para sempre. Observou-a, alguns metros à sua frente, girando sobre si com braços abertos, olhos fechados e um sorriso de satisfação tão perfeito que parecia ter nascido junto com ela. Ao longe, ouviu um tiro e ela vibrou em luzes. Como quem acorda de um sonho bom para um sonho melhor, ela abriu os olhos e caminhou na direção dele, cantarolando uma melodia que acabara de inventar.
- "E eles nunca vão saber... o lugar em que vivemos todos querem conhecer".
- Que lugar é esse?
Ela deitou na areia, sorrindo de novo, e respondeu.
- Estamos aqui agora.
Ele compreendeu. Havia perfeição em tudo que ele sentia nesse momento. Inclinando-se sobre ela, achou que pudesse escutar o seu coração batendo, calmo e frenético ao mesmo tempo. Beijou-a e ela pareceu voltar à realidade, compreendendo. Quando separou seus lábios dos dela, um leve gemido escapou do seu peito que subia e descia, agitado, enquanto ela franzia o cenho, ainda com olhos fechados.
...
A grande janela do quarto mostrava uma vista abrumadora da ponta; à distância, um velero cruzava as águas lentamente. Do outro lado, Michael Franti começara assobiar; ele olhou para a cama vazia, procurando com os olhos. Ela surgiu a través da porta do banheiro, nua.
- Adoro essa música.
O corpo nú dela era o único que conservava a perfeição que experimentara há umas horas atrás.
- Eu sei.
Ela ficou na varanda, junto dele, e acendeu um cigarro. Ele assistia às ondas golpear as pedras da praia, dezenas de metros embaixo. Lembrou do tiro que ouvira na noite anterior. Alguém havia morrido perto dele? Decidiu não fazer essa pergunta.
- Quanto tempo vais ficar na cidade?
- Queres saber quando eu vou embora? - um sorriso triste, ou talvez sarcástico, adornava seu rosto.
- Eu não disse isso.
- Pouco tempo, talvez não nos vejamos de novo.
- Bobagem, sempre precisarás de alguém para pagar a conta.
Ela soltou uma gargalhada. A inspiração daquela tristeza, ou talvez sarcasmo, parecia ter desaparecido; isso o aliviou. Ele acrescentou
- Nunca mais duvidarei quando tu falares em surpresas.
Ela riu de novo, ligeiramente ruborizada. Fixou seus olhos nos dele por alguns instantes e, incapaz de achar uma resposta apropriada, olhou em direção ao mar e deu uma tragada do seu cigarro.
- Vou tomar um banho - disse ela, entregando-lhe o cigarro.
Ele deu uma tragada, com a mente em branco, enquanto ela se afastava. Lançou o cigarro para o vazio.
- Queres companhia?
Ela parou no vão da porta, e o olhou nos olhos, sem se virar totalmente, com os dedos tocando suavemente ambos os lados. Seus olhos eram tão intensos que ele não conseguiu articular mais uma palavra. Ela atravessou o vão da porta e a fechou tras de si.
- Oh deus - pensou ele. Dirigiu-se à mesa e encontrou, em meio a garrafas vazias, uma que ainda continha um pouco de champagne. Se serviu uma dose e armou-se de coragem. Colocou seu cd favorito de smooth jazz, aumentou o volume, e chegou até a porta do banheiro. Com um sorriso nos lábios, girou a maçaneta.
A porta estava trancada.
- "E eles nunca vão saber... o lugar em que vivemos todos querem conhecer".
- Que lugar é esse?
Ela deitou na areia, sorrindo de novo, e respondeu.
- Estamos aqui agora.
Ele compreendeu. Havia perfeição em tudo que ele sentia nesse momento. Inclinando-se sobre ela, achou que pudesse escutar o seu coração batendo, calmo e frenético ao mesmo tempo. Beijou-a e ela pareceu voltar à realidade, compreendendo. Quando separou seus lábios dos dela, um leve gemido escapou do seu peito que subia e descia, agitado, enquanto ela franzia o cenho, ainda com olhos fechados.
...
A grande janela do quarto mostrava uma vista abrumadora da ponta; à distância, um velero cruzava as águas lentamente. Do outro lado, Michael Franti começara assobiar; ele olhou para a cama vazia, procurando com os olhos. Ela surgiu a través da porta do banheiro, nua.
- Adoro essa música.
O corpo nú dela era o único que conservava a perfeição que experimentara há umas horas atrás.
- Eu sei.
Ela ficou na varanda, junto dele, e acendeu um cigarro. Ele assistia às ondas golpear as pedras da praia, dezenas de metros embaixo. Lembrou do tiro que ouvira na noite anterior. Alguém havia morrido perto dele? Decidiu não fazer essa pergunta.
- Quanto tempo vais ficar na cidade?
- Queres saber quando eu vou embora? - um sorriso triste, ou talvez sarcástico, adornava seu rosto.
- Eu não disse isso.
- Pouco tempo, talvez não nos vejamos de novo.
- Bobagem, sempre precisarás de alguém para pagar a conta.
Ela soltou uma gargalhada. A inspiração daquela tristeza, ou talvez sarcasmo, parecia ter desaparecido; isso o aliviou. Ele acrescentou
- Nunca mais duvidarei quando tu falares em surpresas.
Ela riu de novo, ligeiramente ruborizada. Fixou seus olhos nos dele por alguns instantes e, incapaz de achar uma resposta apropriada, olhou em direção ao mar e deu uma tragada do seu cigarro.
- Vou tomar um banho - disse ela, entregando-lhe o cigarro.
Ele deu uma tragada, com a mente em branco, enquanto ela se afastava. Lançou o cigarro para o vazio.
- Queres companhia?
Ela parou no vão da porta, e o olhou nos olhos, sem se virar totalmente, com os dedos tocando suavemente ambos os lados. Seus olhos eram tão intensos que ele não conseguiu articular mais uma palavra. Ela atravessou o vão da porta e a fechou tras de si.
- Oh deus - pensou ele. Dirigiu-se à mesa e encontrou, em meio a garrafas vazias, uma que ainda continha um pouco de champagne. Se serviu uma dose e armou-se de coragem. Colocou seu cd favorito de smooth jazz, aumentou o volume, e chegou até a porta do banheiro. Com um sorriso nos lábios, girou a maçaneta.
A porta estava trancada.
September 01, 2010
500 days (II)
Um beijo rápido marcou o fim do encontro. Sem se importar como teria se importado no passado; acendeu um cigarro, seguindo-a com a vista enquanto ela se dirigia ao carro. Inalou mais uma vez o fumo que invadiu, pacificador, os seus pulmões. Um carro passou na sua frente; ela beijou as pontas dos dedos e acenou, sorrindo. Ela mudara o cabelo, mas ele não percebera. Também não percebera que era a primeira vez que ele a via de unhas compridas, que usava o mesmo perfume que usou no dia em que se conheceram, ou que pequenas rugas começaram a aparecer no seu rosto. Deixara passar também o peso nos lábios que faziam parecer forçados quase todos os seus sorrisos. Não percebera, enfim, esse ar de insatisfação que governava os gestos dela. Assistindo impassível à sua própria falta de observação, inventou uma desculpa:
- Foda-se.
Começou a andar, com o cigarro acesso e à procura de um táxi, enquanto buzinas competiam para chamar a sua atenção. Absorto em seus pensamentos, ele ignorava tudo ao seu redor. Ignorava os próprios passos, pronunciando vários 'perdão' apenas audíveis após esbarrar em algum desconhecido. Ignorava as luzes, de postes e anúncios, que cegavam seus olhos e o impediam de ver as estrelas, tímidas no começo da noite. Ignorava até o próprio vento que roubava descaradamente tragadas do seu cigarro. Seu celular tocou enquanto ele entrava no táxi.
- Pra onde?
- Só dirija até meu dinheiro acabar.
O taxista sorriu, desconfiado.
- Alô?
- Oi, acabei de chegar em São Luis. Vamos nos ver?
- Drinks no lugar de sempre?
- Já estou aqui.
Desligou com um estalo no pulso e um sorriso nos lábios, mas o lugar de sempre fugia à sua memória. Depois de alguns minutos perdidos, ele, no taxi, chegou ao local marcado.
Uma moça o esperava; era uma velha amiga, mas ele não pensou nisso. Havia-se acostumado com outro tipo de lembranças: os cabelos loiros, os olhos cinzas cercados de um preto abrumador, o nariz, artificial, os lábios alegres e, especialmente, aquelas curvas que anunciavam um grande estado de espírito, com um profundo aprécio ao mundo das noites sem dia, que a deixava sempre disposta ao sexo sem amor. No céu, a lua era grande e brilhava, mas estava partida pela metade e amarela; parecia doente.
- Nunca tinha percebido como as coisas mais belas podem parecer tão tristes - as palavras escaparam da sua boca, e temeu estar sendo inoportuno. Ela o abraçou, rindo, com um abraço que lhe esquentou o sangue.
- Não sei se ficar feliz por me achares tão bela ou preocupar-me por me achares tão triste - a brisa sacudia seu cabelo enquanto ela o olhava.
- Estás radiante, você toda, radiante. Cada detalhe da tua aparência perde importância frente ao conjunto todo e o efeito que ocasionam - estava sendo sincero.
- Então fico feliz - respondeu, com um sorriso brilhante -. Vem - o segurou pelo braço, puxando-o -, tu demoraste muito, eu comecei a beber e agora quero continuar. Preciso de alguém para pagar a conta.
Ele soltou uma gargalhada.
- Suponho que algumas coisas nunca mudarão.
- Para de reclamar e senta comigo.
Sentou pesadamente na cadeira, o alívio que sentira com a gargalhada tinha passado.
- Como estão as coisas? A ilha ainda te trata bem?
- Suponho que sim, os negócios andam bem, alguns lugares legais tem aparecido...
- E a namorada?
- A namorada... - o final da frase veio acompanhada de uma risadinha sarcástica - Namoro implica amor. O que a gente tem é... só conveniência - observou o sorriso dela se dissolver enquanto seu olhar se carregava de algo triste, que ele odiava: compaixão.
- Devias terminar com ela então, abandonar tudo e viajar o mundo inteiro; conhecerias alguém e te apaixonarias, e quem sabe algum dia conseguirias chamá-la de namorada.
- Não acredito mais nisso - replicou, rindo-, mas a idéia de viajar o mundo conhecendo mulheres lindas realmente me atrai.
- Eu não quis dizer isso, quis dizer que deverias procurar o amor.
- Quando eu tinha 17 anos, uma garota que eu amava me perguntou se alguma vez alguém, cuando eu tivesse que ir embora, havia me abraçado tão forte como se estivesse me segurando, e pedido para eu ficar com ela. Hoje, muitos anos e mulheres depois, a resposta continua a mesma.
- Eu lembro que tu gostavas daquela música... daquele filme.
- Tua memória me surpreende hoje - aproveitou para fugir do assunto que sempre lhe ganhava olhares de compaixão.
- A noite ainda tem muitas surpresas pela frente - respondeu ela, de maneira provocadora.
- Um brinde a isso.
Beberam com aquela intimidade que só o tempo dá; comentando o passado e o futuro, mas sempre fugindo do presente.
- Que estavas fazendo quando me ligaste?
- Já esqueceu? Eu disse que estava bebendo.
- Ah, sim, e esperando alguém para pagar a conta; agora lembrei - ela riu.
- E tu, estavas com alguma mulher? Interrompi a diversão?
- Eu estava saindo de um café, de um encontro com uma mulher; mas você não interrompeu nada, muito menos diversão.
- Coitada! - festejou, rindo - Se ela é tão feia, então porque estavas em um café com ela?
- Ela não é feia, é das mais lindas que eu conheço; e estava em um café com ela porque ela queria conversar sobre o passado.
- Então é das antigas? Uma dessas muitas que mencionaste? - ele entendeu a provocação. Ela nunca achou que ele fosse um conquistador eficaz.
- Não. Na verdade, ela poderia ter sido uma das poucas. Mas chega, já respondi muitas perguntas essa noite e ainda não vi nenhuma das surpresas que tu mencionaste.
- Bom... - disse ela, olhando ao redor; claramente, uma surpresa estava por vir - Eu tenho um presente para ti, para lembrar dos velhos tempos - ela mostrou a lingua.
- Garçom! Uma garrafa de whisky e a conta.
- Foda-se.
Começou a andar, com o cigarro acesso e à procura de um táxi, enquanto buzinas competiam para chamar a sua atenção. Absorto em seus pensamentos, ele ignorava tudo ao seu redor. Ignorava os próprios passos, pronunciando vários 'perdão' apenas audíveis após esbarrar em algum desconhecido. Ignorava as luzes, de postes e anúncios, que cegavam seus olhos e o impediam de ver as estrelas, tímidas no começo da noite. Ignorava até o próprio vento que roubava descaradamente tragadas do seu cigarro. Seu celular tocou enquanto ele entrava no táxi.
- Pra onde?
- Só dirija até meu dinheiro acabar.
O taxista sorriu, desconfiado.
- Alô?
- Oi, acabei de chegar em São Luis. Vamos nos ver?
- Drinks no lugar de sempre?
- Já estou aqui.
Desligou com um estalo no pulso e um sorriso nos lábios, mas o lugar de sempre fugia à sua memória. Depois de alguns minutos perdidos, ele, no taxi, chegou ao local marcado.
Uma moça o esperava; era uma velha amiga, mas ele não pensou nisso. Havia-se acostumado com outro tipo de lembranças: os cabelos loiros, os olhos cinzas cercados de um preto abrumador, o nariz, artificial, os lábios alegres e, especialmente, aquelas curvas que anunciavam um grande estado de espírito, com um profundo aprécio ao mundo das noites sem dia, que a deixava sempre disposta ao sexo sem amor. No céu, a lua era grande e brilhava, mas estava partida pela metade e amarela; parecia doente.
- Nunca tinha percebido como as coisas mais belas podem parecer tão tristes - as palavras escaparam da sua boca, e temeu estar sendo inoportuno. Ela o abraçou, rindo, com um abraço que lhe esquentou o sangue.
- Não sei se ficar feliz por me achares tão bela ou preocupar-me por me achares tão triste - a brisa sacudia seu cabelo enquanto ela o olhava.
- Estás radiante, você toda, radiante. Cada detalhe da tua aparência perde importância frente ao conjunto todo e o efeito que ocasionam - estava sendo sincero.
- Então fico feliz - respondeu, com um sorriso brilhante -. Vem - o segurou pelo braço, puxando-o -, tu demoraste muito, eu comecei a beber e agora quero continuar. Preciso de alguém para pagar a conta.
Ele soltou uma gargalhada.
- Suponho que algumas coisas nunca mudarão.
- Para de reclamar e senta comigo.
Sentou pesadamente na cadeira, o alívio que sentira com a gargalhada tinha passado.
- Como estão as coisas? A ilha ainda te trata bem?
- Suponho que sim, os negócios andam bem, alguns lugares legais tem aparecido...
- E a namorada?
- A namorada... - o final da frase veio acompanhada de uma risadinha sarcástica - Namoro implica amor. O que a gente tem é... só conveniência - observou o sorriso dela se dissolver enquanto seu olhar se carregava de algo triste, que ele odiava: compaixão.
- Devias terminar com ela então, abandonar tudo e viajar o mundo inteiro; conhecerias alguém e te apaixonarias, e quem sabe algum dia conseguirias chamá-la de namorada.
- Não acredito mais nisso - replicou, rindo-, mas a idéia de viajar o mundo conhecendo mulheres lindas realmente me atrai.
- Eu não quis dizer isso, quis dizer que deverias procurar o amor.
- Quando eu tinha 17 anos, uma garota que eu amava me perguntou se alguma vez alguém, cuando eu tivesse que ir embora, havia me abraçado tão forte como se estivesse me segurando, e pedido para eu ficar com ela. Hoje, muitos anos e mulheres depois, a resposta continua a mesma.
- Eu lembro que tu gostavas daquela música... daquele filme.
- Tua memória me surpreende hoje - aproveitou para fugir do assunto que sempre lhe ganhava olhares de compaixão.
- A noite ainda tem muitas surpresas pela frente - respondeu ela, de maneira provocadora.
- Um brinde a isso.
Beberam com aquela intimidade que só o tempo dá; comentando o passado e o futuro, mas sempre fugindo do presente.
- Que estavas fazendo quando me ligaste?
- Já esqueceu? Eu disse que estava bebendo.
- Ah, sim, e esperando alguém para pagar a conta; agora lembrei - ela riu.
- E tu, estavas com alguma mulher? Interrompi a diversão?
- Eu estava saindo de um café, de um encontro com uma mulher; mas você não interrompeu nada, muito menos diversão.
- Coitada! - festejou, rindo - Se ela é tão feia, então porque estavas em um café com ela?
- Ela não é feia, é das mais lindas que eu conheço; e estava em um café com ela porque ela queria conversar sobre o passado.
- Então é das antigas? Uma dessas muitas que mencionaste? - ele entendeu a provocação. Ela nunca achou que ele fosse um conquistador eficaz.
- Não. Na verdade, ela poderia ter sido uma das poucas. Mas chega, já respondi muitas perguntas essa noite e ainda não vi nenhuma das surpresas que tu mencionaste.
- Bom... - disse ela, olhando ao redor; claramente, uma surpresa estava por vir - Eu tenho um presente para ti, para lembrar dos velhos tempos - ela mostrou a lingua.
- Garçom! Uma garrafa de whisky e a conta.
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