Desculpa se eu estou sendo bobo; mas eu realmente preciso contar isto pra alguém. Eu- eu a beijei ontem à noite. E eu me sinto bobo porque não consigo parar de sorrir. Mas é como... como se eu fosse feliz. Vou contar como aconteceu. Foi... repentino, sabe? Como quando você está tendo um mal dia e do nada você vê a lua no meio do céu. Foi parecido, ela estava falando e eu a beijei. Só a beijei, simples assim. Mas cara, realmente não estava pronto para isso. Quando seus lábios tocaram os meus pela primeira vez não foi nem um beijo de verdade, poderia simplesmente ter sido o melhor acidente que já acontecera comigo... E então a vi sorrindo, com os olhos quase fechados como se estivesse escutando uma bela canção, ou como se estivesse pensando exatamente o mesmo que eu. E eu amei esse sorriso e, por um momento que durou para sempre, eu lembrei o toque desses lábios, a sua cor e como tremeram, surpreendidos, quando encontraram os meus. E eu podia sentir sua respiração, com seu próprio ritmo, como se a gente nem estivesse no meio de um show, e eu respirei junto com ela até que, depois de meio segundo de eternidade, não consegui mais me segurar e a beijei de novo... E seus lábios eram cálidos, suaves e macios. E juro que eram doces... Lembro o seu gosto, sua cor e sua calidez... e a sensação que eles davam. ...e como se mexiam, acariciando os meus -isso foi o melhor-, eram como ondas levando um náufrago são e salvo de volta à praia. E a sua língua, ávida e brincalhona... era hipnótica, como se estivesse recitando em silêncio o segredo da vida, dá para entender? E eu me senti como- como se esse único beijo pudesse de fato me salvar.
E quando a noite chegou ao fim, eu não conseguia parar de sorrir; ainda não consigo parar de sorrir cada vez que eu lembro, e já passaram 75 dias...
August 26, 2010
August 23, 2010
500 days
AUTHOR'S NOTE: The following is a work of fiction.
Any resemblance to persons living or dead
is purely coincidental.
Especially you.
- Sr. Silva? - A enfermeira disse com uma voz nasal que, em seus melhores dias, podia causar dores de cabeça.
- Sr. Silva? - Repetiu, irritada, enquanto uma velha senhora se levantava com dificuldade da cadeira, tentando se equilibrar com um bastão.
- Por aqui, Sra. Silva.
Os detalhes da sala já lhe eram familiares; afinal, era uma sala de espera e a espera nunca combinou com seus hobbies. Três vezes por semana repetia a mesma rotina: táxi, hospital, exames, médico, táxi, casa. Alguns rostos eram também familiares; o velho de oncologia, a garota da cadeira de rodas e a psicóloga que insistia em conhecê-lo de lugares impossíveis. Impaciente, levantou-se, pegou um cigarro e lembrou que é proibido fumar.
- Odeio hospitais - pensou, dirigindo-se de volta à cadeira enquanto punha o cigarro de volta no bolso, brincando com seu isqueiro. Uma mão tocou seu braço.
- Oi...
Virou-se, alarmado, e reconheceu a voz e os olhos negros.
- Olá. Que surpresa.
- É, é sempre interessante reencontrar uma pessoa; né?
- É sim, mas o que me surpreendeu foi você ter falado comigo. Já nos reencontramos algumas vezes, e você decidiu me ignorar.
Um ligeiro rubor cubriu o rosto dela.
- Sr. Espino?
- Sou eu - disse, levantando a mão acenando para a enfermeira-. Foi legal te ver, - virou-se e começou a andar- tchau.
- Espera.
- Oi?
- Vamos tomar um café? Depois da consulta?
- Tá, beleza. Te espero. - mentiu. Ele não ia esperá-la mais uma vez.
Ao sair da consulta, andando com passos apressados, pensando no discurso do médico, demorou a reconhecer a cabeleira que o esperava na porta. Ela girou sobre si com um sorriso nervoso enquanto afastava o polegar dos lábios.
- Vamos?
- Vamos.
Chegaram ao café em completo silêncio. Uma mulher conversava alegremente ao telefone numa mesa no meio do local; pouco se importava com o resto. A garçonete dirigiu-se à mesa que eles acabaram de escolher.
- Vais beber o que?
- Capuccino, por favor.
- Um capuccino para ela e um espresso, sem açúcar.
- Sim, senhor.
- ...sabe? Nunca te entendi.
- Você nunca tentou me entender, você tentou me adivinhar. E isso é impossível. É defeito de psicólogo, acham que não precisam perguntar nada para entender tudo sobre uma pessoa.
- ... - Ela olhou para a mesa, sem conseguir pensar em uma resposta para esse repentino lapso de agressividade.
- Desculpa, não foi a minha intenção ser rude.
- É que - sacudiu a cabeça, confusa, de um jeito que ele nunca tinha visto antes - tu começaste a complicar as coisas-
- O dia das mensagens quando você estava em Salvador?
- É.
- Na minha cabeça eu achei que iria torná-las simples.
- Mas fazendo isso? Como é que alguém ama tão fácilmente?
- Eu não te amava. - Disse ele, com voz calma.
- Então porque você fez isso?
Ele esboçou um sorriso ressignado e olhou ao redor, relembrando o discurso que tinha ensaiado em vão tantas vezes no passado.
- Eu gostava muito de você; eu sei que tal vez até para isso tenha sido rápido demais. Mas é o meu mal, mal de escritor. Tento viver tudo tão intensamente que se torne uma coisa digna de ser escrita. Por outro lado, eu tinha motivos; 90% deles, eu conhecia. Os outros dez... esses me deixavam louco. E eu tinha que saber se valia a pena me expor a isso; já tinha passado por situações similares antes de você... Mais que as necessárias.
Ela despejou a garganta, e mordeu o canto esquerdo do lábio inferior quando olhou para a garçonete que se aproximava com uma bandeja e os dois cafés.
- Seu pedido. - Disse a garçonete gentilmente, colocando a os cafés na mesa.
- Eu assisti o filme que me recomendaste. Você lembra?
- 500 dias com ela? Lembro, sim.
- E lembras do que me falaste ao recomendá-lo?
Ela sorriu.
- Lógico. Confirmas minha teoria?
- Duas vezes.
- Quais?
- Na cena do Ikea; quando Summer diz que não quer nada sério, ela torce a boca pro lado direito, do mesmo jeito que você; como aquele dia na praia, quando você me negou um beijo. - Sentiu o sangue colorindo seu rosto.
- E a outra? - Perguntou ela, complacida com o visível efeito dessa lembrança.
- Após a briga no bar, quando o cara começa a dar em cima de Summer e pergunta 'This is your boyfriend? THIS guy?'.
- Ah, sim. Lembrei.
- Depois da briga ela vai na casa dele, chega perto dele e fala com ele olhando para baixo. Você faz isso também.
- Você lembra muito bem das coisas.
- É minha maldição. Tentei remediá-lo, mas, infelizmente, o álcool não me ajuda nesse caso.
Ambos riram, com o tipo de riso que comemora situações constrangedoras. Ele continuou:
- Lembra quando você me disse que eu me fixo muito nas coisas?
- Sim... Isso mudou? - levantou as sombracelhas, inquisitiva.
- Não, pois, como eu disse, não acontece muito.
- Sei.
- Você não era Summer... - hesitou.
- Como assim?
- Você não era Summer, eu já tinha mil dias de Summer quando te encontrei. Você era Autumn. E eu não queria 500 dias de ti, não assim.
- Mas...
- E eu não queria um sim; eu queria uma resposta. Mas talvez não seja tão simples assim - um pensamento atravessou a mente dele, era compreensão o que estava vendo? Ou talvez a estivesse sentindo ele próprio.
- Não é simples não.
- Sad but true.
- A minha vida amorosa sempre foi confusa.
- Sei como é.
Ela o olhou nos olhos, tentando adivinhar o significado dessa frase.
- Já é tarde - ele mentiu-. Deixa eu pagar o teu café.
- Posso pagar o teu?
- Está bem - sorriu. Alguma coisa dentro dele pareceu voltar à vida.
Quando a conta esteve paga, os dois deixaram o café. Uma vez na porta, eles se olharam; parecia que uma parede invisível entre eles tinha desabado.
- Vou te ver de novo? - perguntou ela, olhando para os sapatos dele.
- Espero que sim.
Any resemblance to persons living or dead
is purely coincidental.
Especially you.
- Sr. Silva? - A enfermeira disse com uma voz nasal que, em seus melhores dias, podia causar dores de cabeça.
- Sr. Silva? - Repetiu, irritada, enquanto uma velha senhora se levantava com dificuldade da cadeira, tentando se equilibrar com um bastão.
- Por aqui, Sra. Silva.
Os detalhes da sala já lhe eram familiares; afinal, era uma sala de espera e a espera nunca combinou com seus hobbies. Três vezes por semana repetia a mesma rotina: táxi, hospital, exames, médico, táxi, casa. Alguns rostos eram também familiares; o velho de oncologia, a garota da cadeira de rodas e a psicóloga que insistia em conhecê-lo de lugares impossíveis. Impaciente, levantou-se, pegou um cigarro e lembrou que é proibido fumar.
- Odeio hospitais - pensou, dirigindo-se de volta à cadeira enquanto punha o cigarro de volta no bolso, brincando com seu isqueiro. Uma mão tocou seu braço.
- Oi...
Virou-se, alarmado, e reconheceu a voz e os olhos negros.
- Olá. Que surpresa.
- É, é sempre interessante reencontrar uma pessoa; né?
- É sim, mas o que me surpreendeu foi você ter falado comigo. Já nos reencontramos algumas vezes, e você decidiu me ignorar.
Um ligeiro rubor cubriu o rosto dela.
- Sr. Espino?
- Sou eu - disse, levantando a mão acenando para a enfermeira-. Foi legal te ver, - virou-se e começou a andar- tchau.
- Espera.
- Oi?
- Vamos tomar um café? Depois da consulta?
- Tá, beleza. Te espero. - mentiu. Ele não ia esperá-la mais uma vez.
Ao sair da consulta, andando com passos apressados, pensando no discurso do médico, demorou a reconhecer a cabeleira que o esperava na porta. Ela girou sobre si com um sorriso nervoso enquanto afastava o polegar dos lábios.
- Vamos?
- Vamos.
Chegaram ao café em completo silêncio. Uma mulher conversava alegremente ao telefone numa mesa no meio do local; pouco se importava com o resto. A garçonete dirigiu-se à mesa que eles acabaram de escolher.
- Vais beber o que?
- Capuccino, por favor.
- Um capuccino para ela e um espresso, sem açúcar.
- Sim, senhor.
- ...sabe? Nunca te entendi.
- Você nunca tentou me entender, você tentou me adivinhar. E isso é impossível. É defeito de psicólogo, acham que não precisam perguntar nada para entender tudo sobre uma pessoa.
- ... - Ela olhou para a mesa, sem conseguir pensar em uma resposta para esse repentino lapso de agressividade.
- Desculpa, não foi a minha intenção ser rude.
- É que - sacudiu a cabeça, confusa, de um jeito que ele nunca tinha visto antes - tu começaste a complicar as coisas-
- O dia das mensagens quando você estava em Salvador?
- É.
- Na minha cabeça eu achei que iria torná-las simples.
- Mas fazendo isso? Como é que alguém ama tão fácilmente?
- Eu não te amava. - Disse ele, com voz calma.
- Então porque você fez isso?
Ele esboçou um sorriso ressignado e olhou ao redor, relembrando o discurso que tinha ensaiado em vão tantas vezes no passado.
- Eu gostava muito de você; eu sei que tal vez até para isso tenha sido rápido demais. Mas é o meu mal, mal de escritor. Tento viver tudo tão intensamente que se torne uma coisa digna de ser escrita. Por outro lado, eu tinha motivos; 90% deles, eu conhecia. Os outros dez... esses me deixavam louco. E eu tinha que saber se valia a pena me expor a isso; já tinha passado por situações similares antes de você... Mais que as necessárias.
Ela despejou a garganta, e mordeu o canto esquerdo do lábio inferior quando olhou para a garçonete que se aproximava com uma bandeja e os dois cafés.
- Seu pedido. - Disse a garçonete gentilmente, colocando a os cafés na mesa.
- Eu assisti o filme que me recomendaste. Você lembra?
- 500 dias com ela? Lembro, sim.
- E lembras do que me falaste ao recomendá-lo?
Ela sorriu.
- Lógico. Confirmas minha teoria?
- Duas vezes.
- Quais?
- Na cena do Ikea; quando Summer diz que não quer nada sério, ela torce a boca pro lado direito, do mesmo jeito que você; como aquele dia na praia, quando você me negou um beijo. - Sentiu o sangue colorindo seu rosto.
- E a outra? - Perguntou ela, complacida com o visível efeito dessa lembrança.
- Após a briga no bar, quando o cara começa a dar em cima de Summer e pergunta 'This is your boyfriend? THIS guy?'.
- Ah, sim. Lembrei.
- Depois da briga ela vai na casa dele, chega perto dele e fala com ele olhando para baixo. Você faz isso também.
- Você lembra muito bem das coisas.
- É minha maldição. Tentei remediá-lo, mas, infelizmente, o álcool não me ajuda nesse caso.
Ambos riram, com o tipo de riso que comemora situações constrangedoras. Ele continuou:
- Lembra quando você me disse que eu me fixo muito nas coisas?
- Sim... Isso mudou? - levantou as sombracelhas, inquisitiva.
- Não, pois, como eu disse, não acontece muito.
- Sei.
- Você não era Summer... - hesitou.
- Como assim?
- Você não era Summer, eu já tinha mil dias de Summer quando te encontrei. Você era Autumn. E eu não queria 500 dias de ti, não assim.
- Mas...
- E eu não queria um sim; eu queria uma resposta. Mas talvez não seja tão simples assim - um pensamento atravessou a mente dele, era compreensão o que estava vendo? Ou talvez a estivesse sentindo ele próprio.
- Não é simples não.
- Sad but true.
- A minha vida amorosa sempre foi confusa.
- Sei como é.
Ela o olhou nos olhos, tentando adivinhar o significado dessa frase.
- Já é tarde - ele mentiu-. Deixa eu pagar o teu café.
- Posso pagar o teu?
- Está bem - sorriu. Alguma coisa dentro dele pareceu voltar à vida.
Quando a conta esteve paga, os dois deixaram o café. Uma vez na porta, eles se olharam; parecia que uma parede invisível entre eles tinha desabado.
- Vou te ver de novo? - perguntou ela, olhando para os sapatos dele.
- Espero que sim.
August 18, 2010
Destino
Alguns dias atras, algo me fez pensar em uma situação que ocorreu faz umas semanas. É sempre interessante reencontrar uma pessoa, mas é incrívelmente fascinante o encontro acontecer no lugar que você menos espera.
Estava eu em casa, perdendo meu tempo na frente do computador; fazia calor e decidi abrir a janela. Alguns segundos depois, vejo a silueta delgada de um rosto familiar; "eu conheço essa garota", pensei. Tentei atrair sua atenção e funcionou: fumamos, conversamos, conversamos e ah, também conversamos. Decidimos continuar o papo em um bar e lá conversamos mais: o que mais tinhamos em comum eram os nossos problemas. Foi uma descoberta, no mínimo, agradável. Então uma ideia atravessou a minha mente: "e eu que queria beber hoje... então não teria conhecido uma pessoa tão legal". E realmente, uma longa série de acontecimentos aparentemente aleatórios conspiraram a favor desse encontro, dessa descoberta:
Eu tinha acordado tarde, sem fome e triste. Acontece.
Tentei encontrar uma pessoa e não deu certo. Nada sério, bola pra frente.
Me arrumei para ir ao trabalho e lembrei que não tinha a chave da sala. Que merda.
Fui ao cinema, filme bom.
Saio do cinema, dor de cabeça. Que merda.
Tento encontrar a mesma pessoa e não dá certo de novo. Que dia ruim.
A dor de cabeça piora. Remédio ressolve.
Passo no supermercado, compro as coisas, esqueço a vodka. Normal.
Entro no msn e comento com uma amiga; ela me recomenda não beber, mas passear na
praia. Boa ideia.
Volto da praia e me sinto bem. Demorou.
Faz calor e abro a janela. Olha só quem tá ai...
Parece simples, mas; e se eu tivesse acordado quando o despertador tocou? E se eu tivesse encontrado aquela pessoa ou lembrado de levar a chave do escritório? E se eu não tivesse esquecido de comprar a vodka? E se minha amiga não falasse aquilo? E se ela não tivesse entrado porque talvez tivesse que passear com o cachorro? Só pode ter sido o destino.
Como aquele dia... Dessa vez, eu enxergo as mãos do destino mais claramente: Eu tinha voltado do Perú e meus amigos já estavam se mudando cada um para um canto diferente; então, voltei direto para a pousada. Aquele dia, começo de junho, eu tinha um 'quarto' que decidi não tomar; como consequência, veio o tédio e me convenceu a beber, chamo dois amigos que trabalham em casa e compramos as coisas, estamos bebendo na sacada quando um carro passa e alguém grita meu nome. Ligo para esse alguém e a convido para beber comigo; ela estava com um amigo e duas amigas. Dito amigo eu tinha conhecido quando os ajudei com um trabalho da faculdade; portanto, ele concordou. Quando chegaram, as apresentações foram feitas, e mais um encontro foi marcado. Tinha um show aquela noite em um bar perto de casa, lá nos encontramos. Lá eu queimei a calça dela e em troca ganhei um beijo. E muitos mais.
Imaginem só, se eu não tivesse ido pro Perú certamente ninguém teria se mudado; se eu tivesse tomado o 'quarto' aquele dia, não estaria na sacada no momento do grito. Se não tivesse sido véspera de feriado, ela não teria saido de casa. Se eu não tivesse conhecido e ajudado dito amigo, talvez ele não tivesse concordado de assistir à reunião. Se não tivesse tido show algum, nunca teriamos nos encontrado. É de ficar louco. Quantas coisas mais influenciaram os acontecimentos que levaram a tudo acontecer? Quantas vezes sem sabermos o destino susurra ao pé dos nossos ouvidos para decidirmos fazer o que ele prefere? Só pode ser o destino...
E sabem o que me indigna hoje? Que aquela noite, quase no fim da noite já, eu e ela estávamos num canto do bar, encostados em uma coluna de madeira, seus braços ao redor do meu pescoço e os meus ao redor da sua cintura; ela me beijava e se apertava contra mim. Aquela noite, quase num susurro, ela me perguntou:
- Você acredita no destino?
E eu, você acredita? Eu, incapaz de me render à vontade daquele deus caprichoso, ou talvez só querendo parecer intelectual, não achei nada melhor a responder que um simples
- Não.
Estava eu em casa, perdendo meu tempo na frente do computador; fazia calor e decidi abrir a janela. Alguns segundos depois, vejo a silueta delgada de um rosto familiar; "eu conheço essa garota", pensei. Tentei atrair sua atenção e funcionou: fumamos, conversamos, conversamos e ah, também conversamos. Decidimos continuar o papo em um bar e lá conversamos mais: o que mais tinhamos em comum eram os nossos problemas. Foi uma descoberta, no mínimo, agradável. Então uma ideia atravessou a minha mente: "e eu que queria beber hoje... então não teria conhecido uma pessoa tão legal". E realmente, uma longa série de acontecimentos aparentemente aleatórios conspiraram a favor desse encontro, dessa descoberta:
Eu tinha acordado tarde, sem fome e triste. Acontece.
Tentei encontrar uma pessoa e não deu certo. Nada sério, bola pra frente.
Me arrumei para ir ao trabalho e lembrei que não tinha a chave da sala. Que merda.
Fui ao cinema, filme bom.
Saio do cinema, dor de cabeça. Que merda.
Tento encontrar a mesma pessoa e não dá certo de novo. Que dia ruim.
A dor de cabeça piora. Remédio ressolve.
Passo no supermercado, compro as coisas, esqueço a vodka. Normal.
Entro no msn e comento com uma amiga; ela me recomenda não beber, mas passear na
praia. Boa ideia.
Volto da praia e me sinto bem. Demorou.
Faz calor e abro a janela. Olha só quem tá ai...
Parece simples, mas; e se eu tivesse acordado quando o despertador tocou? E se eu tivesse encontrado aquela pessoa ou lembrado de levar a chave do escritório? E se eu não tivesse esquecido de comprar a vodka? E se minha amiga não falasse aquilo? E se ela não tivesse entrado porque talvez tivesse que passear com o cachorro? Só pode ter sido o destino.
Como aquele dia... Dessa vez, eu enxergo as mãos do destino mais claramente: Eu tinha voltado do Perú e meus amigos já estavam se mudando cada um para um canto diferente; então, voltei direto para a pousada. Aquele dia, começo de junho, eu tinha um 'quarto' que decidi não tomar; como consequência, veio o tédio e me convenceu a beber, chamo dois amigos que trabalham em casa e compramos as coisas, estamos bebendo na sacada quando um carro passa e alguém grita meu nome. Ligo para esse alguém e a convido para beber comigo; ela estava com um amigo e duas amigas. Dito amigo eu tinha conhecido quando os ajudei com um trabalho da faculdade; portanto, ele concordou. Quando chegaram, as apresentações foram feitas, e mais um encontro foi marcado. Tinha um show aquela noite em um bar perto de casa, lá nos encontramos. Lá eu queimei a calça dela e em troca ganhei um beijo. E muitos mais.
Imaginem só, se eu não tivesse ido pro Perú certamente ninguém teria se mudado; se eu tivesse tomado o 'quarto' aquele dia, não estaria na sacada no momento do grito. Se não tivesse sido véspera de feriado, ela não teria saido de casa. Se eu não tivesse conhecido e ajudado dito amigo, talvez ele não tivesse concordado de assistir à reunião. Se não tivesse tido show algum, nunca teriamos nos encontrado. É de ficar louco. Quantas coisas mais influenciaram os acontecimentos que levaram a tudo acontecer? Quantas vezes sem sabermos o destino susurra ao pé dos nossos ouvidos para decidirmos fazer o que ele prefere? Só pode ser o destino...
E sabem o que me indigna hoje? Que aquela noite, quase no fim da noite já, eu e ela estávamos num canto do bar, encostados em uma coluna de madeira, seus braços ao redor do meu pescoço e os meus ao redor da sua cintura; ela me beijava e se apertava contra mim. Aquela noite, quase num susurro, ela me perguntou:
- Você acredita no destino?
E eu, você acredita? Eu, incapaz de me render à vontade daquele deus caprichoso, ou talvez só querendo parecer intelectual, não achei nada melhor a responder que um simples
- Não.
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